1984: uma grande obra que você deveria ler

Considerado um dos maiores romances políticos do século XX, 1984, escrito por George Orwell, surpreende-nos a cada linha. É improvável que o leitor feche o livro sem antes ter refletido sobre o que lia, por mínimo que fosse. Mais improvável ainda, é que este mesmo leitor retorne à sua rotina sem antes questionar os desvios que ocorrem no plano político e social que o cerca. Não é apenas evocar à lembrança a imagem do Grande Irmão ao ligar a TV no noticiário sensacionalista e repugnante, mas é também questionar os padrões de fala à sua volta e passar a notar mais atentamente aos longos discursos políticos que nada agregam.

 

Logo no primeiro parágrafo, somos apresentados a Winston, o nosso herói. Mas por que chamá-lo de herói? Ele não é um ser de grandes feitos – pelo contrário, sua mediocridade é exemplar, estando abaixo, até mesmo, da linha média de indivíduos da sua época. Ademais, a classificação propriamente literária, Winston é o nosso herói por ser o nosso representante na trama. A maioria de nós seria, naquele contexto, o indivíduo medíocre que repugna a figura autoritária, onipresente, sem ao menos ter consciência de que o faz. Ele é o nosso bode expiatório numa realidade massacrante que, esperamos, nunca venha a nos acontecer.

 

Além dele, somos apresentados, também, à sua úlcera varicosa (insuficiência venosa), a qual ganha certo destaque devido aos lances de escada que Winston haveria de enfrentar nos parágrafos seguintes, até chegar em seu apartamento.

 

Aos detalhes, nos é descrito como o personagem se relaciona com as questões do trabalho, dando maior noção do que venha a ser sua labuta no Ministério da Verdade (uma repartição estatal responsável pela constante falsificação de dados e manipulação das mídias). Somos também levados a imaginar as cenas sociais descritas pelo autor em torno da relação de ódio e adoração para com o representante político, extremamente autoritário, Grande Irmão. Tal descrição impacta de tal forma para quem lê, que chega a refletir como um mau presságio de uma realidade, iminente de acontecer (lhe soa familiar, caro leitor?).

George Orwell, Escritor

 

Longe de ser uma leitura empolgante logo de início, o que chama a atenção na trama é o seu desenvolvimento. Ela nos faz aguardar ansiosos pela conclusão dos fatos, pela justificativa do porque nos apresentar a um indivíduo que vive uma vida tão desprazerosa. É à espera do plot twist, da reviravolta na trama, que continuamos com a leitura, por vezes enfadonha ou exaustiva.

 

Seja como for, as reviravoltas chegam. Não uma, mas, muitas. Algumas mais cedo, outras mais tarde. O desenrolar da trama segue uma linha de inconstância na vida do pobre Winston. A tensão político-social cedem lugar à uma outra tensão: um amor inesperado e proibido. Como viver uma paixão numa sociedade autoritária onde a castidade é superestimada e o matrimônio é visto unicamente para fins reprodutivos? Impossível. Exceto, claro, se for na ilegalidade. E é esse o rumo que assumido por nosso herói e sua jovem paixão: esconder-se dos grandes olhos do Estado, para desfrutar dessas novas emoções.

 

Com o desenrolar da trama, somos levados inúmeras vezes ao sufocamento – por milésimos de segundos – ao lidar com a tensão que sofrem os personagens por viverem na ilegalidade. Não é apavorante, mas é tenso imaginar-se em tal situação.

 

Ao ler 1984, muitas evocações surgirão, sendo elas adequadas à suas próprias experiências e visão de mundo. Não é possível prever o quanto essa grandiosa obra irá tocar seu intelecto, mas digo-lhe que o fará em algum nível.

 

Aqueles que lêem às cegas (digo, sem perquisar sobre obra e autor, entregando-se ao deleite da obra em si, conforme se lê), é possível que em primeira instância interpretem o romance orwelliano como uma crítica massiva ao socialismo. Surpreendam-se: não o é. O próprio Orwell declarou inúmeras vezes publicamente ser ele próprio um socialista ferrenho. No entanto, tendo declarado-se um socialista democrata, ele classifica sua obra como uma crítica a todo aquele que se desvia dos princípios sociais tendendo à cegueira.

 

Publicado originalmente em 1948, numa época politicamente conturbada, a obra de Orwell trata com massiva perspicácia sobre as contestações sociais que o próprio autor prevê como resultado para o futuro mundial. Extremamente atual, não é demandado muito esforço para relacionar o romance orwelliano com os acontecimentos sociais atuais.

 

Eu li esta obra após minha iniciação ao gênero distópico, a qual se deu através uma outra obra magnífica: Admirável Mundo Novo, de Audous Huxley. Sendo assim, não pude deixar de correlacionar ambas. Há quem diga que em nada se relacionam além do contexto histórico e literário ao qual se inserem. Porém, foi possível, pra mim, correlacionar ambos romances em uma linha histórica fictícia na qual a obra de Huxley sucede à obra de Orwell.

 

Em Admirável Mundo Novo, a sociedade mundial também vive sob um governo totalitário. Enquanto na obra de Orwell encontramos trechos nos quais o narrador nos diz que, se possível, o Estado proibiria o orgasmo e destruiria os sentimentos que pais e filhos nutrem reciprocamente (e que estaria obtendo êxito), na obra de Huxley o controle da natalidade e a organização social é predito pelo Estado, o qual organiza em castas os indivíduos de acordo com predições genéticas e de programação intelectual. Os indivíduos são gerados por inseminação artificial, são educados e doutrinados, sendo de inteira responsabilidade do Estado até determinada idade. A expressão sexual dos indivíduos é amplamente liberada (ao contrário do vivenciado na obra de Orwell), porém a gestação e os sentimentos de parentesco que viriam com este estágio do ciclo reprodutivo são duramente reprimidos, e desde cedo as crianças são ensinadas a enojar-se deles. (Para melhores entendimentos e possíveis discussões, recomendo a leitura da obra de Audous Huxley, Admirável Mundo Novo.)

 

Ao ler a obra de Orwell após a obra de Huxley, o sentimento é de correlação. Ambas obras são extremamente importantes para a literatura e cultura pop do século XXI, tendo suas contribuições em movimentos sociais, literatura, produção cinematográfica, enfim.

 

Para concluir, longe de mim entregar os detalhes deliciosos de serem lidos, mas deixo a vocês uma afirmação: vale a leitura de cada linha arrastada e, por vezes, enfadonha.

 

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