“A história do Jeremias se mistura com a de muitas crianças e adultos.” Uma entrevista com Rafael Calça

Desde o primeiro lançamento, as Graphics MSP tem chamado bastante atenção. De roteiros mais sérios a protagonismos de personagens menos badalados do mestre Mauricio de Sousa, as histórias têm atraído leitores a cada volume lançado. Grande parte disso se deve ao grau de liberdade criativa  dada a seus autores, podendo tratar de assuntos mais densos, desde divórcio até a morte de um parente mais próximo.

Eis que na 18ª história o tema abordado é o racismo. Jeremias – Pele é uma HQ que mostra a descoberta de uma criança sobre o racismo e como ela lida com isso. Conversamos com o roteirista da HQ, Rafael Calça. Confira a entrevista abaixo:

Tabuleiro Nerd: Como surgiu o convite para roteirizar a HQ?

Rafael Calça: O Editor Sidney Gusman já conhecia nossos trabalhos anteriores, inclusive um que fiz com o Jefferson, “Feliz Aniversário, Feliz Obituário”, lançado em 2005. Então nos telefonou já com a dupla e o tema em mente.

Tabuleiro Nerd: Jeremias Pele contém um roteiro bastante crítico, que difere muito das obras da MSP. Como foi a aceitação interna e do próprio Maurício?

Rafael Calça: Teve momentos diferentes, pelo o que soube. Empolgação, dúvida… Mas, no geral, uma expectativa muito boa de fazermos algo bonito e que já nasceria especial, por ser a primeira vez que Jeremias teria uma história só sua.

Rafael Calça, Mauricio de Sousa e Jefferson Costa

Tabuleiro Nerd: Durante a Campus Party, você comentou sobre partes da história da HQ terem acontecido com você e com o Jefferson. Onde a história do personagem se mistura com a sua?

Rafael Calça: Apesar do Jefferson e eu usarmos lembranças e certos acontecimentos pessoais, não é algo só nosso. São momentos que toda pessoa negra se relaciona. O preconceito tem clichês. Então a história do Jeremias se mistura com a de muitas crianças e adultos.

Tabuleiro Nerd: A HQ tem diversas críticas, inclusive sobre como os negros são retratados nas histórias em quadrinhos. Como você percebe essa colocação?

Rafael Calça: Não há muitos bons personagens de quadrinhos que são negros. Sempre há um problema, um estereótipo ou um olhar racista mesmo. Isso por terem sido criados por autores brancos, que não conseguiam ver através de uma lente preconceituosa. Crescer lendo super heróis foi me identificar com outras características, mais profundas. Porque a primeira impressão, de ver um herói parecido comigo, não viria. E se viesse, logo iria descobrir que era um ex-presidiário, filho de uma prostituta viciada em drogas, ou ex-atleta que caiu em desgraça, etc. Essa é a caracterização dos negros na mídia.

Tabuleiro Nerd: A representatividade negra tem ganhado bastante espaço na cultura pop, vide o sucesso que foi Pantera Negra. Qual a sua avaliação sobre essa presença crescente nas produções e o que ainda precisa ser feito?

Rafael Calça: Eram passos tímidos até Pantera Negra. Ali foi possível ver que é possível criar um grande blockbuster com elenco majoritariamente negro e falando de questões sociais. Há público para isso e a prova foi a bilheteria assombrosamente alta. Entreter e educar podem caminhar juntos em diversos assuntos e formatos.

Tabuleiro Nerd:  Existe a possibilidade de uma sequência para Jeremias?

Rafael Calça: Existe sim. A aceitação do público está incrível, em nível pessoal e emocional. E isso se refletiu nas vendas, que estão ótimas. Ter essa percepção com 2 meses de lançamento é surpreendente. Mas ainda é cedo demais pra pensar nisso.

Tabuleiro Nerd: Depois de Jeremias, percebi que não há muitos personagens negros nas próprias histórias da Turma da Mônica. Isso teve algum impacto dentro da editora?

Rafael Calça: Teve sim, há bastante interesse na MSP em criar histórias de maior representatividade. Vamos acompanhar.

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