A horripilante existência de um sonhador

Já era comum para Epitáfio se levantar, coçar a cabeça – deixando seus cabelos encaracolados ainda mais desgrenhados – e, ainda de pijama, passar seu amargo e esfumaçante café pelo velho coador de pano.

 

Epitáfio desde muito jovem mora sozinho. Hoje, aos 40 e longe do centro urbano, vive em sua casa de alvenaria, de dois modestos cômodos e sótão. Ao redor, poucos móveis. De resto, só uma torneira que pacientemente pinga gotas que mais parecem marcar o tempo e uma escada, tão alta quanto sua própria casa.

 

Poucas são as vezes que Epitáfio se distancia dos arredores de sua casa ao centro urbano – o que faz e a quem procura permanecem desconhecidos, pois poucos sabem sobre sua história ou seu rosto. Em uma conversa de bar, ouvi o balconista referindo-se a um tal “esquisitão solitário”, logo pensei se tratar do mesmo.

 

Toda noite, ao lado de sua casa, Epitáfio sobe a longa escada. Pouco depois ele desce, retornando para seus aposentos, pronto para dormir. Seu semblante parece ser mais sereno todas as noite, mas, sem nada dizer, recolhe-se à cama de ripas de madeira finas.

 

Assim como todos os dias, Epitáfio repetia sua rotina, torrando suas horas com os mesmo passos do dia anterior. Certa feita, ao cair a noite, Epitáfio fora avistado saindo de sua casa com algo em suas mãos – as línguas diziam ser uma espécie de livro, caderno ou algo muito próximo… E lá se foi Epitáfio mais uma vez, subindo e sumindo entre a névoa fria que encobria a região.

 

A noite estava silenciosa e o brilho da lua não se fazia presente. Dessa vez, Epitáfio demorou mais do que o habitual e seu semblante não parecia sorrir. Ao entrar e fechar a porta, uma forte chuva derramou pelo chão. Mesmo com muita chuva, foi possível notar pela janela a sua silhueta desenhada sob a luz enfraquecida de um candieiro. Epitáfio senta, apoia o objeto sobre a mesa, e eleva suas mãos à cabeça.

 

Algo deve ter-lhe perturbado tanto que seus calculados passos pareciam desandar. Agora, o tempo já não era compassado pelas gotas de sua torneira – a chuva caia com tal intensidade que a deixava muda. A agitação tomou conta de Epitáfio, que logo começou a rasgar o objeto sobre a mesa. De repente, um forte vento açoitou sua janela, fazendo voar tudo o que havia rasgado em ato de fúria. Tudo se acalmou.

 

No dia seguinte, Epitáfio não preparou seu café, não contou as horas, não seguiu sua rotina. A casa parecia vazia. Nenhuma janela se abria, nem à noite saiu para a escada subir. Dias se passaram e não havia nenhuma notícia de Epitáfio.

 

De tanto murmurinho, decidi partir em busca do protagonista dessa história. Coletei vários retalhos de versões ditas no caminho que me fizessem chegar à casa de Epitáfio. Anotava cada detalhe em minha caderneta preta, que comprara na quitanda lá do centro – desde muito cedo tomei gosto pela escrita de fatos corridos, para que cada detalhe ficasse eternizado.

 

Andei. Atravessei ruas, estradas, cruzei caminhos e voltei outros… o que me fazia pensar no caminho que Epitáfio talvez fosse uma invenção ou que, na verdade, as pessoas inventaram uma forma (uma versão) do mesmo. Pensei em desistir, pois muitas foram as horas gastas à sua procura – me perguntava qual seria o somatório de gotas daquela torneira se convertidas em horas… Bobagem minha.

 

Continuei.

 

Encontrei.

 

Acordei.

 

Como de costume, cocei minha cabeça, levantei e, ainda de pijama, preparei meu amargo e esfumaçante café. Contei cada segundo do meu dia – marcados pelas gotas que sequencialmente martelavam o tempo e, ao escurecer, saí e subi a escada que fica ao lado da minha casa. Levei comigo minha caderneta e um pedaço de grafite.

 

Do alto, eu vejo o mundo como eu gostaria: as estrelas brilham só pra mim, e a lua… ah! a lua! Linda quando cheia! Cada detalhe que eu vejo, vira uma página das minhas anotações. É como se eu pudesse guardar, como um retrato, um pedacinho daquela beleza, emoldurando cada dia que vivi, pois sei que dificilmente minha memória guardará.

Danielle Sodré

Danielle Sodré

Engenheira Ambiental e Sanitarista. Fã da Mulher-Maravilha. Entusiasta por representações femininas na cultura pop e suas repercussões