“A pesquisa em quadrinhos é marginalizada dentro das universidades.” Entrevista com Laluña Machado

Em 2019, um dos personagens mais emblemáticos da cultura pop, se não o maior, completa 80 anos. Com sua primeira aparição em maio de 1939 na Detective Comics #27, o Batman tem tido uma evolução em diversas mídias e se propagado ao longo dessas 8 décadas através de filmes, séries, quadrinhos, jogos que fez com que o homem morcego tornasse um símbolo altamente reconhecível na cultura pop.

 

Então, decidimos chamar a especialista sobre o assunto morcegão para debater a influência do mundo externo na criação do personagem, a sua evolução durante todos esses anos e como o Batman se tornou essa grande figura midiática.

 

Laluña Machado é graduada em História pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB, foi uma das fundadoras do Grupo de Estudos e Pesquisas “HQuê?” – UESB, atualmente é membro do Observatório de Histórias em Quadrinhos ECA-USP e da ASPAS – Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial. Também é coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Sonia Luyten na Gibiteca de Santos e editora do site Minas Nerds. Sua pesquisa acadêmica é focada na primeira representação do Batman no seriado de 1943, a partir daí, ela se tornou uma das maiores especialista do país no universo ficcional do Homem-Morcego.

 

 

TN.  Como surgiu o seu interesse de estudo/desenvolver pesquisa ser sobre o Batman?

 L.M. Bom, eu já estava na metade da minha graduação e já tinha uma pesquisa em andamento, na verdade, era algo que já estava praticamente pronto e teria sequencia num mestrado. Mas eu percebi que era algo que eu não queria levar para o resto da minha vida. Pesquisa tem ser tratada com compromisso e isso não pode ser feito se você não gostar do que faz.

 

A partir daí eu larguei o meu trabalho anterior e me dei conta que poderia estudar quadrinhos e cinema numa pesquisa só e foi aí que saiu o meu trabalho monográfico sobre a primeira representação do Batman para o cinema que é a cinessérie de 1943.

 

Isso me possibilitou e me possibilita até hoje muita coisa em ternos de vertentes de análise para esses produtos da cultura de massa. Acabo sempre introduzindo pontos filosóficos, sociológicos e de contexto histórico nas produções que fazem parte do universo ficcional do Batman.

 

Diversos personagens dos quadrinhos tiveram influência de algum contexto histórico para sua criação como, por exemplo, o Capitão América – que surge em meio a Segunda Guerra Mundial. Em qual contexto histórico surge o Batman e como isso repercutiu para as páginas de seu gibi?

 Toda e qualquer produção ela tem influência do seu contexto de criação e o Batman não seria diferente. Fatos como o Crack da Bolsa de 1929, Grande Depressão, Lei Seca, ascensão da Máfia, criação de alguns setores de investigação no FBI, desenvolvimento da indústria do cinema na década de 1930, Expressionismo Alemão, literatura fantástica e policial… foram alguns dos elementos que possibilitaram a construção do maior personagem da cultura pop. Tudo isso fez parte do cotidiano de foram direta ou indireta dos jovens Bill Finger e Bob Kane.

 

É sabido que o Batman se fez muito presente no universo masculino desde a infância – surgimento de brinquedos e vestuário “direcionados” aos jovens e adultos. Essa configuração ainda se faz presente, mesmo com a aplicação do alcance de acesso da mesma forma que, com a maior participação de jovens e mulheres nos quadrinhos. Ainda assim, como é a reação do público quando você se apresenta como pesquisadora sobre o personagem?

 Então… após a década de 1960 a ideia Batman começou a funcionar muito bem. Mas o que o é isso?? Se vemos a elipse amarela com um morcego no centro em quase todos os lugares, ou a silhueta do Batman, ou até mesmo o nome e alguns personagens que estão imersos em sua diegese, isso é ideia. Ou seja, produtos e mais produções que não há necessidade da presença dele, Uma Aventura Lego é um exemplo disso, mas que tá lá e funciona. Ele vai permanecer sombrio nos quadrinhos e com sua origem intocável, mas a ideia flutua. Nisso, quando chegamos numa loja de roupas, por exemplo, nunca achamos modelos de camisas da Capitã Marvel, Mulher Maravilha, Gamora… na sessão masculina, mas quando você vai na feminina lá tem várias opções de camisas e produtos do Batman. Veja bem, não é da Batwoman, não é da Batgirl… é do Batman. Um simples argumento desse pode dizer muita coisa sobre um dos personagens mais rentáveis do mundo e principalmente sobre a identificação das pessoas com ele, ressaltando principalmente suas recepções de produtos que são direcionados para o cinema. Dado essa gama de informações que as pessoas já têm de forma simbiótica em relação a ele, algumas coisas caminham muito bem em relação ao meu trabalho. Só que depois de acesso ao que eu faço eles costumam interpretar algumas coisas com outros filtros e isso é um dos melhores resultados que eu posso ter.

 

Laluña Machado em entrevista para o programa ‘Conversa com Bial’

 

 

Agora uma pergunta capciosa. O Batman já teve diversos arcos e equipes criativas diferentes à frente do personagem. Qual é o seu arco preferido do Batman?

 Eu gosto muito das histórias que geralmente não fazem parte das produções mensais. O que eu mais gostei recentemente foi Batman Cavaleiro Branco. Uma história muito bem amarrada e muito bem desenhada, que traz várias referências e um Batman “mais real”, além de ter um Coringa “mais real” também.

 

 Conte-nos um pouco de como foi sua jornada de pesquisa e desenvolvimento sobre o assunto? Já tem em vista alguma continuidade?

 Como qualquer ramo de pesquisa nesse país, não foi fácil, e tenho pra mim que nunca será. Ainda mais estudando quadrinhos. Mas é algo que não tenho pretensão de parar completamente, quero manter algumas coisas e realizar tantas outras na área. Publicações de alguns livros e seguir carreira docente universitária estão na lista.

 

Por se tratar da temática “quadrinhos” para dentro do ambiente acadêmico, se verifica alguma maior dificuldade/entrave para o desenvolvimento de pesquisas?

 A pesquisa em quadrinhos é marginalizada dentro das universidades. Desenvolver qualquer coisa em relação a isso é um ato de resistência. Mas tendo exemplos do Observatório de Quadrinhos da USP, que mantem suas atividades há 30 anos, dá certo fôlego e incentivo nas produções. Além disso, a formação de vários Grupos de Pesquisas nesses últimos anos em várias localidades tem propiciado um aumento no número de trabalho, e, sobretudo, na qualidade desses trabalhos.

 

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Ronan Carvalho

Designer, Gamer, Membro da Tropa dos Lanternas Amarelos e morador de Hell's Kitchen

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