A Síndrome do salvador branco

Algumas obras do cinema tendem a retratar um pouco da vida real nas telas. Com narrativas empolgantes e inspiradoras, a sétima arte tem um enorme poder de difusão de suas histórias, que motivam e servem como combustível para muitas vidas. Dentre essas obras, algumas apresentam alguns conceitos que não condizem com a realidade da vida cotidiana, fazendo com que o conteúdo visto em tela seja absorvido como verdadeiro – fato inverídico. Uma das narrativas que pode ser pontuada é a do ‘salvador branco’.

 

Como o nome diz, esse conceito se baseia em um personagem branco resgatar personagens não brancos de circunstâncias infelizes. O branco é retratado como uma figura messiânica, que frequentemente aprende algo sobre si mesmo durante a trajetória de resgatar personagens não brancos de suas condições desfavoráveis. Dessa forma, o cinema mostra uma representação sociológica das relações raciais e étnicas, apresentando conceitos abstratos de moralidade e bondade como características inatas aos brancos, não encontradas em pessoas de outras etnias.

 

O salvador branco é retratado corriqueiramente como um homem que está fora de seu lugar dentro de sua própria sociedade, tida como selvagem ou retrógrada, até que ele assume o “ônus” da liderança racial para resgatar as minorias sociais de seu sofrimento. Como tal, histórias de salvadores brancos têm sido descritas por sociólogos como “fantasias essencialmente grandiosas, exibicionistas e narcisistas”.

Histórias Cruzadas (2011)

Em seu artigo “The Whiteness of Oscar Night”, algo como “A branquitude da noite do Oscar” em tradução livre, o sociólogo Matthew W. Hughey descreve, basicamente, como se dá a narrativa dos filmes do gênero: “O filme é frequentemente baseado em alguma história supostamente real. Em segundo, ele apresenta um grupo não branco ou uma pessoa que está em conflito ou luta com outros que são particularmente perigosos ou que ameaçam sua vida e sustento. Terceiro, uma pessoa branca (o salvador) entra no meio e através de seus sacrifícios – como professor, mentor, advogado, herói militar, aspirante a escritor, ou aspirante a guerreiro nativo americano -, é capaz de salvar fisicamente ou ao menos resgatar a pessoa ou a comunidade de pessoas de cor, no final do filme.” E dá para puxar diversos filmes assim pela memória: Amistad (1997), O Último Samurai (2003), Histórias Cruzadas (2011), Avatar (2009) e tantos outros.

 

Com esse subgênero em alta, o cinema acaba por reforçar estereótipos que já estamos cansados de ver em tela: o negro malandro, a mulher negra histérica e brigona, o latino a superar uma grande barreira, o negro sábio e tantos outros. Claro que, em uma indústria majoritariamente branca, entendo a dimensão da dificuldade em travar tais debates e, mais ainda, em trazer mudanças, com o adendo de sempre ter um olhar de viés mercadológico e adequação de tais produtos.

 

Estamos numa época onde tais narrativas já não deviam está em voga, vide como a representatividade está tão presente nas diversas mídias. É preciso olhar mais de perto como esses enredos são difundidos para o público das minorias, que querendo ou não, consome esses produtos tanto quanto a massa mainstream. Como disse Viola Davis em seu discurso no Emmy 2015: o que falta é oportunidade para as minorias contarem suas próprias histórias.

 

 

Fontes:

13 filmes para entender a ‘síndrome do salvador branco’

White savior narrative in film

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Ronan Carvalho

Designer, Gamer, Membro da Tropa dos Lanternas Amarelos e morador de Hell's Kitchen