A solidão da mulher negra

Por Letícia Sampaio

 

Dos resquícios de uma escravidão ainda presente, a solidão da mulher negra é uma das opressões mais latentes na sociedade brasileira. Tratar sobre o assunto com pessoas que não entendem a vivência da mulher negra é desgastante, principalmente quando grande parte da população trata a escravidão como algo superado, que não deixou sequelas sociais, psicológicas e até mesmo – como vamos tratar aqui – afetivas.

 

 

É importante destacar que, desde a lei Áurea, se passaram 131 anos. Ainda que muitos tratem a questão como coisa do passado, é preciso reconhecer o quão recente foi esse processo. Famílias negras foram dilaceradas durante a escravidão: filhos eram separados de suas mães; maridos vendidos para compradores diferentes; mulheres negras tornavam-se amas de leite – algo que, muitas vezes, distanciava a mesma do convívio com seu filho biológico -, mulheres eram estupradas e vistas como objetos sexuais por seus senhores de engenho. A relação casa grande-senzala era sórdida e desumana, como já se sabe. Isso desestruturou a percepção de família para população negra, tendo reflexo dessas ações até os dias atuais. A hipersexualização da mulher negra, vista sempre como a mulher da ”cor do pecado”, “boa de cama”, “que tem seios fartos e quadril grande”, exemplos de comentários populares dentro da cultura brasileira.

 

 

Enquanto a mulher negra aparece na TV como globeleza, nua, as mulheres brancas aparece protagonizando personagens que vivem uma linda trama romântica. Enquanto a mulher negra aparece como empregada doméstica, mulheres brancas aparecem como grandes top models. Enquanto mulheres negras são representadas como mães-solteiras, a mulher branca aparece no comercial de margarina, com sua família perfeita. A indústria do entretenimento, quer você acredite ou não, é responsável por moldar grande parte das realidades de uma sociedade – segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, mais de 67 milhões de domicílios brasileiros possuem TVs.

Globeleza: a hiper sexualização da mulher negra

 

Dessa forma, se perpetuam ideais dentro das telinhas e na vida real, como constatado pelos dados do Censo do IBGE de 2010, onde mostra que 52,52% das mulheres negras não estão em um relacionamento de forma constante. E segundo o mesmo censo, ainda comprova que apenas 39,9% dos homens negros dão preferência a mulheres negras. Esses dados jogam por terra o tão citado discurso do “amor não tem cor”. Com esses dados, percebemos que o amor é algo muito distante da mulher negra.

 

 

Depois de trazer esse destrinchamento histórico, algumas obras cinematográficas retratam essa realidade, como o filme Joanita, a história de uma mãe solteira, com seus 3 filhos adultos, descontente com sua vida e desacreditada do amor, que resolve embarcar numa viagem em busca de redescobrir a si mesmo, além de forçar seus filhos a sair do comodismo. Para muitos o filme pode parecer simplista, mas Joanita é o retrato do que muito existe. O filme se torna importante por transmitir um toque de esperança, suavidade, alegria e autoconhecimento para essas mulheres.

Juanita (Netflix, 2019)

 

Uma das produções mais populares no Brasil, que retrata mulheres e família negra saindo extremamente do ideal maçante produzido nos cinemas, é a série ‘Eu, a patroa e as crianças’. A série de humor retrata uma família negra financeiramente estável, onde se encontra demonstrações de afeto e amor familiar, rompendo com o estigma de família negra devastada pelas drogas, traição e violência.

 

 

Para além dos filmes que retratam cenários tristes, é necessária a produção de mais filmes/séries que abordam a mulher negra em situações felizes, como romances. É  infinitamente enorme a quantidade de produções de romance envolvendo casais brancos, fazendo-se necessário equilibrar a balança, trazendo para mulher negra a possibilidade de se sentir representada na telinha do cinema, sentir esperança e a dignidade de ser amada. É preciso colocá-las em grandes patamares de inteligência e riqueza, para que se sintam inspiradas da mesma forma como pessoas brancas se sentem capazes de tudo, por existir milhões de representações.

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Ronan Carvalho

Designer, Gamer, Membro da Tropa dos Lanternas Amarelos e morador de Hell's Kitchen