AGGRETSUKO – Rotina, chefe porcão e muito death metal

Retsuko, 25 anos, solteira, acorda todos os dias às sete horas para ser a “boa funcionária” do departamento de contabilidade de uma empresa em algum ponto do Japão. Até aí, nada fora do tangível, exceto pelo fato de Retsuko ser uma panda vermelha.

A série, originalmente lançada para TV em 2016, chegou no final do mês de abril de 2018 à Netflix, para nos dizer: “você também é uma Retsuko, pode apostar! (Ha ha ha ha ha)”. Brincadeiras à parte, a animação é um interessante retrato da vida profissional corporativa de grande parte da população mundial: rotina, muito trabalho, assédio, pouca (ou nenhuma) vida social e muito, mas muito cansaço. Assim, é fácil pensar que todos que se encaixam no “padrão Retsuko” possuem uma válvula de escape – e o dela é o death metal.

Cada episódio se encaixa como um dia da rotina da panda, carregados de sentimentos não externalizados, exceto quando ela solta a voz no Karaokê – como um refúgio secreto, Retsuko frequenta diariamente o Karaokê da cidade para verbalizar toda a carga de fúria em forma de estresse de seu dia.

Mudar de vida seria a solução ou aceitá-la seria mais conveniente?

Contribuem para seu conflito as divergentes opiniões de seus colegas de trabalho, chefes e amigas, que tanto a apontam como ser característico de sua “natureza” e “personalidade” a submissão à lógica do trabalho, como também, a responsabilizam como sendo a única responsável pela sua própria mudança – este é um dos pontos mais reflexivos desta animação!

Aggretsuko também é capaz de mostrar a relação entre as aparências apresentadas pelos personagens e a visão real destes: representações de vida perfeita nas redes sociais e nas confraternizações do trabalho, além dos constantes sorrisos amarelos e “puxa sacos”, escondem  dificuldades pessoais que vêm a funcionar como mecanismos de sobrevivência nesse universo corporativo, onde é preciso aparentar ser algum sentido funcional.

Nem parece que a Sanrio, responsável pelo mundo cor de rosa da Hello Kitty (!), assumiu a responsabilidade de trazer uma série como esta ao ar. Seriam os espectadores da Hello Kitty, hoje um retrato de inspiração à animação?

Danielle Sodré
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Engenheira Ambiental e Sanitarista. Fã da Mulher-Maravilha. Entusiasta por representações femininas na cultura pop e suas repercussões