As Herdeiras – Um filme realmente intenso e cheio de vida

Confesso que desenvolvi uma expectativa à produções latinas, em especial as que seguem pelo gênero drama. Com ‘As Herdeiras’ não foi diferente – um filme cheio de intensidade, que já mostrou seu potencial nos primeiros minutos de tela.

Com roteiro e direção do paraguaio Marcelo Martinesse – que já carrega em sua bagagem importantes premiações para o cinema, o filme aborda a decadência financeira de um casal no momento que, talvez, seja o mais crítico da vida de uma mulher: a maturidade.

Recheado por mulheres de meia idade, e outras com um pouco mais do que isso, o drama é, sem dúvida, carregado de representatividade e dilemas vivenciados por estas mulheres, todos amarrados sob a perspectiva do casal Chela (Ana Burn) e Chiquita (Margarita Írun).

Com ritmo crescente, o conjunto da obra lhe proporciona um incrível trabalho de sonoplastia, com entonação aos sons dos movimentos dos personagens e de toda interação com o cenário composto em cena, além da intensidade de tons – dos mais carregados aos mais suaves que casam com as emoções representadas nos diferentes atos. Nos enquadres de tela, compartilhamos do sentimento de frustração, apatia e empolgação das fases que marcam a trajetória das duas senhoras, artifício técnico muito bem orquestrado para o drama.

Ao mesmo tempo, foi inegável perceber momentos hilários registrados pelos sarcasmos de um grupo de senhorinhas que se divertiam com seus encontros de carteado, da mesma forma que, com as reações desconcertadas das novas sensações e experiências vivenciadas por Chela, em uma das fases desafiadoras da sua vida: sob os olhares críticos da sociedade burguesa, sua companheira está presa por dívidas e, sem dinheiro para pagar as compras do mercado, tendo que se desfazer de boa parte dos itens de valor, herdados da família.

Dentro dessas dificuldades nunca antes enfrentadas, Chela passa pela fase de redescoberta pessoal e da capacidade de enfrentamento desses desafios de uma forma diferente. Sem se abater, ela segue um novo rumo, no comando de sua vida e de seu Mercedes Benz.

As Herdeiras levou o prêmio Kikito de melhor roteiro e melhor longa estrangeiro no Festival de Cinema de Gramado 2018; levou o prêmio Alfred Bauer (Berlim) de melhor atriz para Ana Burn. A estreia está prevista para 30 de agosto de 2018.

 

P.S. ‘As herdeiras’ passa no Teste de Bechdel.

Danielle Sodré
Sobre Danielle Sodré 34 Artigos
Engenheira Ambiental e Sanitarista. Fã da Mulher-Maravilha. Entusiasta por representações femininas na cultura pop e suas repercussões