Bacurau – Se for, vá com Deus

É muito gratificante ver as produções nacionais alcançando destaque mundial pela sua qualidade e comprometimento com as mensagens de entrega ao espectador.

 

Durante o longa, o reconhecimento espacial, através dos personagens, construção de falas e características locais, transporta instantaneamente quem o assiste de fato para a região Nordeste, tendo certeza que você está inserido em uma localidade que mantém os costumes do respeito às lideranças, a figuras mais velhas e, principalmente, uma ênfase à relação de coletividade.

 

Entretanto, ao passo desses reconhecimentos, identificamos também, os problemas muito recorrentes à nossa realidade: a desassistência de saneamento, de saúde, alimentar, educacional etc., e o assédio político (muito bem representado, por sinal), em especial em período eleitoral.

 

Bacurau possui um ritmo diferente de narrativa, que para quem o assiste pode gerar um “desconforto” ao esperar pelos desfechos entre os atos, ou mesmo para sua conclusão. Em contrapartida, acredito ter funcionado bem, tendo em vista a proposta que mescla ficção, ação, drama e (muita) realidade.

 

 

Esse passo mais “devagar” utilizado para desenrolar a trama, propicia passagens magníficas de reflexão quanto às construções das relações de poder, suas percepções e contrapartidas. Bacurau não é um filme que se atenta à explicação e/ou desenvolvimento individual de personagem, tampouco, explicar em detalhes as motivações individuais, muito pelo contrário, o que está em jogo, justamente, é a percepção e atuação em unidade.

 

Acredito que a produção foi muito assertiva, por trazer em seus detalhes a colocação da necessidade da mobilização coletiva, em unidade e estratégia, para, em resistência e ação, continuar existindo de forma representativa, mesmo que para isso, seja preciso utilizar a violência e alguns precisem ficar para trás.

 

Ainda assim, é muito triste que um filme como este (mas sem nenhuma novidade e/ou espanto nisso) que não esteja mais em cartaz nos cinemas de grande circulação da região. Inclusive, essa estratégia de lançar unicamente nas chamadas “salas VIP”, enfraquece instantaneamente o público de assistir; não porque o filme é ruim, mas fica inviável de se pagar para se ter acesso à cultura.

 

Por fim, faço das palavras do Lunga as minhas: “Eu não tô cansado! Eu tô é com fome, porra!”

Danielle Sodré

Danielle Sodré

Engenheira Ambiental e Sanitarista. Fã da Mulher-Maravilha. Entusiasta por representações femininas na cultura pop e suas repercussões

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