Blade Runner 2049 | Crítica

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Por Ricardo Oliveira

Quando anunciaram a sequência de Blade Runner em 2015, particularmente não recebi com bons olhos a notícia. Hollywood passou a resgatar alguns filmes do passado e temos exemplos de remakes que resultaram em fracasso. Blade Runner, mesmo com seus problemas (que se arrastaram por anos), é um filme que conseguiu ganhar seu reconhecimento entre os fãs do gênero de ficção cientÍfica. Portanto, o anúncio de uma sequência era pra deixar qualquer fã desconfiado. Contudo, para minha grata surpresa, Blade Runner 2049 é um filme que, em muitos aspectos, é até superior ao primeiro. Mas isso é feito de maneira muito respeitosa por Dennis Villeneuve, e a sensação é de revisitar o universo cyberpunk-noir criado por Ridley Scott, inspirado na obra de Philip K. Dick, buscando aperfeiçoá-lo e expandi-lo. Nem a trilha sonora (Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch) deixa de fazer referência a trilha original composta por Vangelis. Até mesmo o ritmo do filme é bem parecido com o primeiro. Em algumas passagens cheguei a me perguntar se ele não estava muito preso ao primeiro filme e, assim, procurando se manter numa zona de conforto. Fica aqui este ponto para observação.

O protagonista, K (Ryan Gosling), o caçador de androides dessa sequência, lembra bastante o Rick Deckard (Harrison Ford), mas apresenta algumas camadas extras de complexidade. Seus questionamentos quanto a sua identidade adensa mais na discussão existencial, presente desde o primeiro filme. A experiência visual é belíssima e mostra como está a Los Angeles quarenta anos depois dos primeiros eventos da história de Deckard: mais poluída, sombria e suja. Villeneuve nos leva além do grande centro e nos apresenta locais mais marcados pela catástrofe que levou aquele mundo à condição decadente em que se encontra: locais desertos, desolados e cobertos por lixo eletrônico – contando com o apoio do cenografista, Dennis Gassner neste quesito. As sequências de ação são hipnotizantes e ajudam o espectador a conhecer mais sobre a realidade distópica de Blade Runner. Outro excelente trabalho fica por conta do diretor de fotografia, Roger Deakins, que é impressionante!

O roteiro aparentemente simples é mais sólido que o do seu antecessor, escrito por Hampton Fancher e David Webb Peoples, contando apenas com a participação de Fancher e a colaboração de Michael Green (Logan). Há reviravoltas interessantes, e em alguns momentos parece até que está se exagerando na exposição para chamar a atenção do espectador para o que está prestes a acontecer, revelando-se uma pista para confundir quem está acompanhando o quebra-cabeças que K tenta solucionar.Outro destaque vai para as atrizes: Sylvia Hoeks interpreta Luv, uma personagem em muito parecida com a Rachel (Sean Young) quanto à função, só que numa versão mais letal. Ela é imponente e seu olhar firme chega a meter medo. A personagem de Ana de Armas é responsável por inserir um elemento interessante a esse universo de replicantes e alta tecnologia. Ela interpreta Joi, uma inteligência artificial que interage com K e nos leva a pensar que replicantes e inteligências artificiais conseguem alcançar um nível de empatia muito superior a nós humanos. Os demais tem atuações “ok” e cumprem suas funções na medida dentro da narrativa.


Por fim, há muito para comentar sobre Blade Runner 2049, mas a empolgação de quem escreve esta resenha pode incorrer em erros e entregar detalhes, podendo atrapalhar a experiência daqueles que tem interesse em assistir ao filme. Somando os detalhes aqui abordados, seguramente temos um trabalho de muita qualidade, que nos convida a uma viagem de imersão e contemplação. Mesmo com o clima melancólico e sombrio, Blade Runner 2049 vem num momento onde poucas produções são capazes de sair do lugar comum em que se encontra o cinema de Hollywood. Não quero parecer exagerado ou denunciar demais meu gosto pelo gênero de Ficção-cientifica e admirador do trabalho feito por Ridley no primeiro longa (mesmo sendo uma visão bem diferente da obra original), mas o ano nem acabou e já considero Blade Runner 2049, um dos melhores de 2017.