Cavaleiros do Zodíaco e sua representatividade furada

2018 foi um ano que marcado pelo sentimento de nostalgia. Vários produtos dos anos 80 e 90 voltaram para as prateleiras, trazendo um frescor aos mais velhos. Contudo, muito do que se viu no quesito de entretenimento teve olhares tortos e protestos em redes sociais. A mudança visual dos Thundercats, a repaginação do visual de She-Ha, o Popeye que não fuma mais cachimbo e come espinafre orgânico, dentre outros mostraram a fragilidade de uma geração mais antiga, que não entende que o seu desenho favorito não é sua propriedade, sendo destinado agora para uma nova geração.

Não estou criticando o amor aos desenhos das décadas passadas, mas nós adultos reclamamos de produtos que, gostemos ou não, tem a finalidade de gerar lucro direto e, principalmente, indireto às empresas – “bonequinhos” everywhere. Se tais mudanças podem acarretar somas grandes em dindin, sinto lhe dizer, meu caro, elas virão de qualquer jeito.  E se o protesto e o “mi mi mi” tiverem fundamento?

Na divulgação do trailer de Cavaleiros do Zodíaco da Netflix, foi revelado que Shun agora seria uma mulher: Shaun. Ao tentar adequar uma atmosfera de diversidade que, além de soar forçada e sem inspiração alguma, apaga a única diversidade que de fato havia na obra original, o protesto é digno!

Shun sempre foi o avesso do que se prega a todo “macho”: ao invés de brigão, era pacifista; ao invés de se fingir de macho inabalável, era sensível; ao invés de interiorizar todos os seus sentimentos, não temia ser visto como sentimental. Além disso, Shun usava uma armadura rosa (com protuberâncias no tórax, indicando seios), seus gestos e atitudes mais doces em uma cena específica do anime – sim, a famosa cena da casa de Libra – deram a ele uma fama de homossexual.

O mais interessante disso tudo é que Shun não se tratava de um “fraco”, pelo contrário: era extremamente poderoso, além de ser o arcabouço do Deus da morte da mitologia grega. Shun nos mostrava um outro lado da masculinidade, aquela que não precisa ser tóxica, durona e “não leve desaforo pra casa”. Ao mudar o gênero do personagem, a sensação passada para os espectáculos é a de validar que tais sentimentos, atitudes e pensamentos são “coisas de mulher”, e que homem que é homem já chega dando porrada e quebrando tudo.

Por se tratar de um produto que trabalha com uma isca nostálgica, Cavaleiros do Zodíaco já chega fazendo barulho em seu entorno. Com estreia para 2019, nós cabe apenas esperar como Shaun será apresentada e torcemos para que seja uma personagem incrível. Por hora, ela ganha um status de persona non grata, bagunçando seu papel na tão esperada representatividade. Aguardemos…

Sobre Ronan Carvalho 109 Artigos
Designer, Gamer, Membro da Tropa dos Lanternas Amarelos e morador de Hell's Kitchen

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