Conteúdo Cultural: Quanto vale ou é por amor?

Dentre as mais situações adversas que o país tem passado, o Brasil enfrenta, também, mais uma crise: a editorial. Um dos principais grupos de distribuição de livros, quadrinhos e revista, decretou falência e pede uma ajuda judicial. Livrarias têm dívidas milionárias com editoras e vão fechando as portas, dispensando funcionários, e, a cada dia, as prateleiras ficam aquém de lançamentos e novidades.

Historicamente, temos uma população que não lê com a frequência média desejada, e quando lê, lê pouco. Dados do Instituto Pró-Livro mostram que 44% dos brasileiros não leem e 30% destes, nunca compraram um livro sequer.

A contraponto disso, houve um crescimento do número de 14% de leitores jovens entre 18 a 24 anos, entre o período de 2011 e 2015. Muito, se dá pelo fenômenos dos booktubers – que são youtubers que fazem avaliações sobre o que têm lido, que tem disseminado de forma fluida, e com uma linguagem enquadrada como mais acessível para esse público, diversas obras. Porém, tem quem veja com outros olhos tais influenciadores, assim como são chamados.

Durante essa semana, foi divulgado pelo autor Ronaldo Bressane um e-mail com uma tabela de cobranças da booktuber Tatiana Feltrin, o qual se mostrou ultrajado com tal ação, colocando que, a crítica literária e disseminação da cultura deveria ser feita por amor ao que faz. Eh… então… não é bem por aí.

Ronaldo Bressane e Tatiana Feltrin

Assim como nos primeiros parágrafos, vamos à um dado relacionado aos booktubers. Em uma pesquisa feita com 500 internautas em 2017, ao serem perguntados se compraram livro por indicação de booktubers, 17% disseram não lembrar, 20% disseram que não, e 63%, que sim. Então, é mais do que clara a influência dos booktubers nas aquisições literárias. Os perfis de quem se mostra contrário a isso, é de uma elite que ainda vê a disseminação da cultura – seja ela literária ou audiovisual – ser feita “no amor” àquilo que se faz. E ainda, se mostra um contraponto do próprio discurso: como querer uma população mais assídua em leitura, quando o alguns trabalham na contramão, de forma a se manter fechados no seu círculo restrito?

Vários booktubers vieram à público dizendo levar em consideração o investimento feito para as resenhas críticas: leitura do livro, entendimento do mesmo, produção do vídeo, roteirização, gravação, edição, divulgação e alcance do público. Algo que, para esse que vos escreve, tem plena consciência em dizer: não é uma tarefa fácil.

Além disso, também se ouviu o outro lado disso. Daniel Lameira, editor da Intrínseca, disse fazer uso de tal artifício de divulgação e têm, como tudo nessa vida, seu lado bom e ruim: “Assim como na mídia impressa, temos que saber diferenciar os bons profissionais dos ruins. Mas nos meus anos trabalhando com youtubers, vi muito mais bons exemplos do que situações ruins, todos deixando claro que não mudariam sua opinião nos vídeos por estarmos pagando, avisando sempre nos vídeos que aquilo é um publieditorial e, inclusive aí, mantendo um relacionamento de transparência com quem realmente os interessa e lhes dá relevância: o consumidor do conteúdo.”

Por fim, a minha opinião pessoal. Não se cria uma fidelização de público de modo fácil e rápido. leva anos, empenho e, principalmente, investimento de tempo, e até financeiro, para tal. Aos que acham a cobrança indevida, que procure outros meios para divulgação. Nada impede que autores, escritores, e até as próprias editoras, utilizem da ferramenta para criar e alcançar o público alvo. A cultura tá aí, para quem quiser consumi-la. Cabe a você decidir o quanto está disposto a pagar para divulgá-la.

Sobre Ronan Carvalho 91 Artigos
Designer, Gamer, Membro da Tropa dos Lanternas Amarelos e morador de Hell's Kitchen

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