Crítica | 120 Batimentos por Minuto

Em tempos de adaptações cinematográficas, raros são os momentos em que paramos para assistir um filme com enredo original. Nos cinemas tupiniquins é comum a visão de cartazes anunciando o próximo possível quebrador de recordes de bilheteria (normalmente um filme adaptado de quadrinhos). Isso pode ser explicado pelo hábito de consumir muito o cinema norte americano, negligenciando o cinema nacional e esquecendo que existe vida além de Hollywood.

Nesse contexto, temos o “diferente” cinema europeu, conhecido como confuso e chocante aos olhos da maioria dos espectadores brasileiros. O recém-estreado longa 120 Batimentos Por Minuto – aclamado e premiado na 70ª edição do Festival de Cinema de Cannes – dirigido por Robin Campillo, se passa nos anos 90, numa França assombrada pelo aumento do número de pessoas HIV positivas. Somos apresentados ao grupo ativista Act Up, que organizava manifestações e lutava pelos direitos dos soropositivos, focando nas suas várias reuniões (recheadas de debates inteligentes e discordância entre os membros) e nos diversos tipos de militância do grupo. No meio de tudo isso, Nathan (Arnaud Valois) encontra espaço para um romance com Sean (Nahuel Pérez Biscayart), um dos membros mais dedicados do movimento.

Cena do filme “120 batimentos por minuto (Robin Campillo, 2018)

Se hoje vivenciamos um período de preconceito com soropositivos, nos anos 90 a situação era ainda mais tensa. E é exatamente isso que o filme retrata: toda a ignorância e preconceito em torno da doença que matou e mata milhões de pessoas (um milhão apenas no ano de 2016). O ponto mais tocado durante o filme é a negligência do governo quanto a campanhas de prevenção da doença e esclarecimento da população sobre as formas de contágio. Isso fica muito claro em cenas de pequenos segundos, como um homem se afastando bruscamente de um “homem presumidamente soropositivo e portador de todo o mal” e uma adolescente relatando que nunca pegaria AIDS porque ela era heterossexual e, portanto, imune. Com uma abordagem nua, crua e sem trilha sonora, Campillo mostra todo o desgaste físico e emocional dos soropositivos da época e daqueles que os rodeiam.

Apesar de se passar nos anos 90, esse filme nunca foi tão necessário. Infelizmente, o número de pessoas soropositivas tem aumentado, especialmente entre adultos jovens (15-24 anos). Aparentemente, os jovens se acham imunes às DSTs ou contam com os avanços da medicina para mantê-los sadios com os coquetéis. Curiosamente, a medicina dos anos 80 ajudou a disseminar o HIV, através de transfusões sanguíneas (já que não existiam testes sanguíneos específicos).

Cena do filme “120 batimentos por minuto (Robin Campillo, 2018)

O filme é um choque de realidade pertinente: a AIDS é uma questão de saúde pública global, não devendo ser esquecida em nenhum momento. Com esse longa, tivemos a oportunidade de sair da sala de cinema com duas opiniões diferentes e muito pano na manga para inúmeras discussões. Além do tópico principal ser naturalmente polêmico, existe o grande choque cultural apresentado. Se você procura algo diferente do que o cinema tem oferecido nesses últimos anos, é certo que este é o filme a escolher. Contudo, é preciso um nível de maturidade um pouco maior para digerir toda a proposta do diretor.

Para finalizar, citarei uma das falas de Sean, num dos diálogos mais importantes do filme: “A culpa não pode ser dividida; você é 100% responsável por contaminar outrem, mas é igualmente 100% responsável por se contaminar.”

Nota: 5/5 dadinhos.

Bianca Cardeal
Sobre Bianca Cardeal 20 Artigos
Médica Veterinária, entusiasta do projeto Zero Dawn, chefe do P&D da Capsule Corp e a única Luffana que tornou-se Griffana em toda a história de Hogwarts.