Crítica | O Justiceiro

The Punisher ou o Justiceiro, é um personagem da editora Marvel Comics criado por Gerry Conway, Jonh Romita Sr. e Ross Andru e sua primeira aparição nos quadrinhos foi na Amazing Spider-Man #129 (1974). Um de seus criadores (Conway) se inspirou num romance publicado nos anos 60 chamado “The Executioner”. A semelhança entre os personagens é imensa: veterano do Vietnã decide vingar sua família que foi brutalmente assassinada pela máfia. Diferente dos personagens de quadrinhos que o público estava acostumado, Francis Castiglione adotava métodos nada convencionais em comparação aos heróis de collant para combater o crime; a descrença no sistema e no poder judiciário o leva a acreditar que a maneira mais eficaz de acabar com a criminalidade era executando os criminosos.

Anos mais tarde, o Justiceiro apareceria nas telas do cinema em The Punisher (1989) interpretado pelo brucutu de filmes de ação, Dolph Lundgren; em 2004, Thomas Jane é responsável por dar vida ao vigilante; chegou se cogitar uma sequência mas o projeto foi deixado de lado. Thomas Jane reviveu o personagem novamente num curta chamado Dirty Laundry (2012) dirigido por Adi Shankar (o mesmo que apresentou uma versão mais sombria e adulta de Power Rangers em 2015). A última aparição do personagem nos cinemas foi em The Punisher: War Zone (2008) dirigido por Lexi Alexander e estrelado por Ray Stevenson. Não há nenhuma relação entre os filmes e os tons são bem distintos. No geral, filmes medianos e o mais despretensioso é o de 1989, que não se preocupa muito com fidelidade na adaptação.

Mas em 2016, Frank Castle reaparece na segunda temporada de Demolidor: violento, sombrio, atormentado e mais uma vez conhecemos sua história de origem e motivações. Muito bem encaixado para antagonizar com Matt Murdock; duas visões conflitantes sobre justiça e com certeza, esse é um dos pontos fortes dessa segunda temporada. Não é exagero afirmar que Jon Bernthal incorpora o personagem e entrega o Justiceiro que não vimos nas produções anteriores para o cinema. Jon Bernthal é o Justiceiro definitivo, com toda certeza!

Apesar da boa inserção de Frank na série do Demolidor, quando a Netflix anunciou que lançaria uma própria para o personagem, fiquei na dúvida se havia realmente a necessidade para tal. Aproveitando a boa receptividade, os criadores viram uma oportunidade – tudo bem, não há problema algum – mas os riscos eram enormes, principalmente em se tratando de como seria feito esse trabalho já que existe um padrão para como essas histórias são contadas e que tendem justamente ao heroísmo, algo que não combina em nada com a personalidade do Justiceiro. Além disso, vamos combinar que, exceto pelo trabalho do Garth Ennis nos quadrinhos, o Justiceiro é um personagem plano e em alguma medida, datado. Ele é a cara de muitos filmes policiais dos anos 70; de filmes como Dirty Harry (1971), Death Wish (Desejo de Matar/1974) onde as premissas basicamente são as mesmas e personagens genéricos que decidem fazer justiça com as próprias mãos.

Contudo, para minha surpresa, se Frank Castle ganha um renascimento (digno) na segunda temporada de Demolidor, aqui veremos a sua consolidação dentro deste universo imaginado para a série de personagens urbanos da Marvel na Netflix, principalmente por inserir mais camadas ao personagem e afastando-o dos clichês e obviedades que um personagem como ele normalmente cai.

Os eventos ocorrem logo depois o arco do Demolidor, para a mídia e o público geral, o Justiceiro estava morto. No seu anonimato, vemos Frank contido e procurando uma forma de lidar com todo o seu ódio e fúria mesmo tendo dado cabo dos assassinos da sua família; a cena chega a ser curiosa, vê-lo quebrando paredes com uma marreta serve muito bem para passar todo esse sentimento de destruição contido. Além disso, mesmo tendo saciado sua vingança, ele não deixa de reviver o assassinato de sua esposa em sonhos que só agravam a sua instabilidade mental. Não demora muito e Frank solta a fera aprisionada. Em seguida, somos apresentados à David Lieberman (Ebon Moss-Bachrach) um ex-funcionário da Agência Nacional de Segurança (NSA) que entra em contato com Frank e revela que ainda existiam pontas soltas e os envolvidos na morte de seus familiares ainda estavam vivos, reacendendo assim, a sede de vingança em Frank Castle. Já destaco a relação Micro – Castle que é muito boa e é agradável assistir o desenvolvimento da amizade entre eles.

Mas o caminho até o encontro dos seus inimigos, como de costume, passa por algumas sub tramas que ajudam a dar gordura a série. Aqui fica evidente a marca da Netflix e sua dificuldade com suas produções; todas as séries seguem um modelo de desenvolvimento de trama e personagens muito semelhantes; o ponto mais grave sempre está no miolo das séries que se amarram nessas subtramas. Por outro lado, em comparação a Punho de Ferro, Justiceiro mesmo com esse miolo maçante, consegue ser interessante por inserir alguns dramas mais convincentes, é o caso dos veteranos que, assim como ele, carregam suas sequelas e traumas de guerra. Esse ambiente construído serve para abordar um tema bastante polêmico que trata de leis mais rígidas de acesso a armas nos EUA. Tema que, também, passou a ser discutido no Brasil em no que se refere ao Estatuto do Desarmamento. Essa discussão não se esgota e não entrega uma solução, e nem deveria. Deixa em aberto e não há nenhum momento onde se percebe algum discurso pro ou contra. Não há respostas fáceis, sempre bom lembrar.

No bojo incluem outras temáticas que ficam carentes de melhor aprofundamento, mas esmiuçar diversos problemas contemporâneos para os norte-americanos (e muitos destes fazem mais sentido para eles do que para nós) deixam a narrativa, de fato, inchada, mas não chega a esgotar a série a ponto de se deixar de lado para voltar a assistir o próximo episódio outro dia. Alguns assuntos nem são tão estranhos: como o terrorismo interno, mas que exigem do espectador estar muito antenado.Evidente que esses arcos poderiam ser resolvidos de maneira a não repetir os erros das produções anteriores, mas consegue ser aceitável porque trabalha melhor esses personagens menores que estão ali para complementar a linha principal da história. Não chegam a ser descartáveis ou esquecíveis, você consegue se importar com eles e quer saber qual será o desfecho do drama de personagens como Lewis Walcott (Daniel Webber).

Nesse sentido, considero Justiceiro uma série solida, madura em muitas passagens; mais violenta que o normal para o padrão, contudo, não chega a ser gratuito. Pode não agradar muitos fãs por apresentar um Castle mais contido que o visto em Demolidor (imaginem!); o personagem acaba sendo esse tipo de figura que cumpre essa função catártica para sentimentos de raiva pela impotência em relação a violência urbana, por exemplo. Mas talvez, pensando nisso, os criadores foram bem consequentes (como disse anteriormente, não há respostas fáceis), recorrer ao maniqueísmo seria um desperdício para o trabalho que Jon Bernthal tem feito com o personagem. Antes eu desconfiava da necessidade de uma série solo para o Justiceiro; costumo dizer que ele pode muito bem funcionar pontualmente como foi a sua aparição em Demolidor, contudo, fui convencido de que pode se arriscar. A questão é que uma próxima temporada vai exigir mais um pouco para não se engessar.

Por fim, mesmo com os problemas (recorrentes) nas séries da Netflix, Justiceiro chegou num patamar parecido com o de Demolidor; é melhor que Punho de Ferro e erra menos do que Luke Cage. Poderia ter menos episódios, ser mais enxuta, é claro. Mas não é tempo perdido.