Crítica | Star Wars: Os Últimos Jedi

Depois do lançamento do episódio VII: The Force Awakens e o barulho entre fãs sobre o filme ter acertado ou não o seu retorno – além das teorias e especulações sobre os mistérios levantados nesse filme que abriu mais uma trilogia do universo de Star Wars – é certo que a expectativa era grande, mesmo pairando no ar a dúvida sobre os rumos da maior saga galáctica dos cinemas.

As queixas com o episódio VIII vão direto na forma de contar sua história onde apela para o confortável (em demasia) sem se arriscar muito, além do fan service que rendeu mais comentários amargos do que boa receptividade. Neste episódio já temos o contrário: Rian Johnson, responsável pela direção e roteiro, se permite arriscar muito mais (o que pode mais uma vez incomodar os fãs mais tradicionais). Contudo, esse é um dos maiores acertos nesse filme: se é para inserir Star Wars em um novo momento, Rian consegue fazer o prometido! Nesse sentido, é hora de deixarmos de lado o purismo, até porque a Disney, mais uma vez, prova que suas escolhas nos levarão para outros caminhos, se abrindo para um novo tempo para a saga. E pensando bem sobre, isso é ruim?

Seguindo essa ideia de transição entre gerações, Rian Johnson acerta em tudo onde J.J Abrams errou. Rian presta homenagens acertadas não somente ao fã, mas a própria história imaginada por George Lucas, resgatando aquele clima de Space Opera ao ponto de chegar próximo de The Empire Strikes Back na grandiosidade (mas só próximo mesmo). Tudo casa perfeitamente e John Willians mais uma vez, magistralmente, dá a trilha necessária para criar a atmosfera capaz de envolver o espectador e emociona-lo. Não há nada gratuito e colocado em cena com o intuito de animar o fã. Mais um acerto em comparação ao episódio anterior.

O filme vai direto ao assunto! Assim que se inicia já entendemos a continuidade aos eventos do episódio VII. Apresentado a linha principal do filme, abre-se para as subtramas que são executadas de forma bem equilibrada (mais um ponto positivo). Todos os personagens ganham seus desenvolvimentos, apesar do arco do Finn (John Boyega) ser levemente mais fraco que os de Poe (Oscar Isaac) e Rey (Deisy Ridley), mas não menos importante. O filme é grande, tem muitos personagens, insere novos e ainda assim, consegue manter-se firme nos trilhos. Apesar da aparição do Benicio Del Toro ser algo meio jogado em cena e que ajuda a compor o arco do Finn, poderia ser melhor aproveitado. Essa é uma falha semelhante a apresentação da Phasma no episódio sete. Phasma, por sinal, merecia um aprofundamento melhor nessa sequência. É bem provável que não agrade aqueles que depositaram alguma expectativa em ver mais sobre ela. Por outro lado, Rose Tico (Kelly Marie Tran) é uma grata surpresa. Uma personagem brava e corajosa que forma dupla com Finn em sua missão.

Kylo Ren (Adam Driver) continua sendo um vilão que não passa a mesma gravidade e impacto nas cenas em comparação ao seu avô, Darth Vader, como muitos esperam. Mas aqui é um ponto a se levar em consideração: depois de Darth Vader, o melhor vilão do universo de Star Wars com toda certeza se chama Almirante Thrawn, muito bem construído por Timothy Zahn que passou a ser parte do cânone definido pela Disney e teve sua aparição na série Rebels. Por outro lado, Kylo está longe de ser um antagonista genérico, ele possui suas motivações e tem muito bem definido onde ele quer chegar. Por mais que ele tenha sido criticado pelo seu temperamento explosivo no episódio VII, na sequência temos o mesmo personagem atormentado e obcecado, mas cada vez mais se definindo em sua trajetória em busca de poder. Kylo de bobo, não tem nada.

O destaque fica para a relação Luke-Rey que me surpreendeu bastante, fugindo do que imaginava encontrar. Não se trata necessariamente de uma relação mestre-discípulo convencional ou já vista na saga. Tudo isso é revisto e dá lugar a um processo dramático de resgate, confronto com passado e certezas sobre a força. O que ajuda a concluir o arco de Luke Skywalker. Um salto nessa jornada espiritual do herói! Inclusive, Mark Hammil está de parabéns na sua atuação que entrega momentos marcantes tanto nas cenas com Rey, no encontro com Leia e com um personagem inusitado que vai fazer você levantar da cadeira com as mãos na cabeça. Daisy Ridley consegue transmitir muito bem o momento em que sua personagem se encontra, e toda sua jornada de iniciação na força é atravessada por desafios físicos e psicológicos  que só mostra o quão forte Rey é. Tudo muito bem construído e ainda reservando algum mistério sobre sua origem.

Sim, nem todas as respostas são dadas neste episódio. Aliás, Rian Johnson brinca com isso a todo momento com o espectador, aproximando-o da resposta de algum mistério mas o afastando ao mesmo tempo. Portanto, é bom não sair da sala carregado de certezas, muito embora, para quem acompanha a saga no universo expandido, possa ficar a suspeita de que muitas informações sobre os personagens vão ficar para algum livro. É um pouco frustrante, mas não chega ser um crime (evitando aprofundar muito para não soltar algum spoiler).

 

Por fim, ainda há muito o que se abordar sobre The Last Jedi e poderíamos nos estender muito nesse texto. No geral, o filme é maduro e ousado; bem executado e que se arrisca mais, se comparado com o antecessor. Rian combina beleza visual (a fotografia está belíssima) e poesia para encerrar o filme e deixar a mensagem que ele quer passar. Evidente que há falhas, bastante pontuais (algumas piadas em excesso) e que não comprometem o filme, mas isso vai da experiência de cada um. O fã mais hard (sempre ele), por exemplo, pode ficar remoendo que ainda não é Star Wars que ele deseja, mas é preciso aceitar que a esperança só pode existir se ela se renova e for capaz de contaminar novas gerações; viva no brilho do olhar de uma criança em algum recanto da galáxia à espera da sua grande aventura.