Crônicas de Dragonlance – Dragões do Crepúsculo do Outono

Para os jogadores do mundialmente conhecido RPG Dungeons & Dragons (D&D), Dragonlance é um nome que dispensa apresentações. Para os iniciantes ou curiosos, uma breve apresentação: escrito pela dupla Margaret Weis e Tracy Hickman e publicado pela extinta TSR em 1984 (depois foi adquirida pela Wizards of the Coast), Dragonlance é um mundo de “Alta Fantasia” – também conhecido como “Fantasia Medieval” – inspirado nas aventuras criadas pelo casal Hickman para suas mesas de D&D. Projeto apresentado e aprovado para TSR, o que veio depois disso foi o sucesso que ajudou a tirar a empresa do atoleiro no qual se encontrava, além de se tornar um dos cenários mais famosos entre os fãs de D&D. Para muitos, os romances foram como uma renovada no gênero que, até então, tinha como principais referências obras como “O Senhor dos Anéis” (J.R.R. Tolkien) e  as “Crônicas de Conan” (Robert E. Howard).

 

Após essa breve (muito breve) apresentação, vamos ao que interessa: “Dragões do Crepúsculo do Outono” é o primeiro livro de uma trilogia, onde somos apresentados ao mundo fantástico de Krynn. A história acontece num período onde os deuses se afastaram após um cataclismo que abriu uma nova era, denominada “Era do Desespero”. Com a ausência dos deuses, o mundo mergulha no caos e guerras, a magia divina deixa de existir e, consequentemente, os clérigos (indivíduos que conseguem canalizar essa magia) tornam-se raros. Por outro lado, a magia arcana existe a partir dos magos, mas é tratada como sinistra, oculta e com bastante desconfiança.

 

Tudo começa com um grupo de amigos numa taverna – assim como o começo de muitas campanhas de RPG, a boa e velha Taverna –, após cinco anos desde o último encontro. Flint Forjardente, Tanis, os irmãos Caramon e Raistlin, Tasslehoff Burrfoot e Sturm Brightblade cumprem a promessa de se reunirem, exceto por Kitiara (meia-irmã de Caramon e Raistlin). Após breve conversa e questionamento sobre as circunstâncias misteriosas que levaram Kitiara a se ausentar, somos apresentados a dois outros personagens que vão se somar ao grupo de aventureiros, Lua Dourada e Vento Ligeiro. Lua Dourada é a portadora de um estranho e místico cajado que pode ser uma pista de que os deuses poderão estar retornando ao mundo de Krynn. Após uma confusão com um membro da guarda local na estalagem, a dupla se reúne ao grupo de amigos e fogem do local, dando início a aventura.

Os escritores, Tracy Hickman e Margaret Weis

A escrita da dupla Weis e Hickman é enxuta e objetiva. Não há grandes descrições de cenários e ambientes, o que não é ruim. O que incomoda um pouco é justamente a quantidade de personagens, uma crítica comum dos leitores. Não bastasse os oito personagens, mais à frente outros personagens se unem ao grupo. Não há espaço para desenvolver arcos próprios, mas os autores conseguem passar um pouco do drama particular de cada um. É perceptível que todos tem muito potencial a ser explorado, apesar do Flint Forjardente se resumir ao mais experiente e ser alívio cômico com o Kender (equivalente a um hobbit) de mão leve, Tasslehoff. Não há muito sobre ele, uma pena, sou fã de anões! Por outro lado, a química entre os dois é muito divertida e funciona muito bem. Tanis é o meio-elfo líder do grupo em constante crise quanto à sua dupla origem – esse elemento tem mais relevância do que sua dúvida amorosa entre Kitiara e Laurana (personagem que entrará para o grupo páginas mais à frente). Inclusive, esse suposto triângulo amoroso é facilmente descartável do background do personagem, não faz diferença alguma. Sturm Brightblade é o cavaleiro e, porque não, o paladino do grupo. Ele está em busca de ser aceito na ordem da qual seu pai fez parte em vida, a Ordem dos Cavaleiros de Solamnia. Segue à risca o código moral de Solamnia, é o cara certinho do grupo. Caramon, o guerreiro musculoso – o mais importante é que ele é o irmão do personagem mais interessante e cativante da história: Raistlin, o mago. Raistlin talvez seja o personagem com mais profundidade e representa um incômodo constante para o grupo, mesmo ele sendo o cara que sempre salva os companheiros de alguma enrascada fazendo uso de sua magia, além de, é claro, ser o mais inteligente.

 

Além da quantidade de personagens, algo que hoje pode não agradar alguns leitores é a forma bem linear da aventura se desenvolver. Tudo acontece de forma que, após a conclusão de uma tarefa, outra se emende. Parece mesmo uma campanha de RPG, onde nossos personagens, para avançar na história cumprem uma quest para seguir adiante. É legal? É, mas pode não agradar. Tudo isso muda (e muito) a partir do segundo livro, onde há uma divisão de núcleos de personagens e a história não fica tão linear, mas isso fica para a próxima resenha. Outra coisa que pode incomodar alguns leitores (nesse caso já não tem relação com a história, mas com o trabalho de revisão e ortografia): há alguns erros ao longo do livro. Isso não chega a estragar em absoluto a leitura, mas a editora responsável pela republicação do livro no país poderia ser mais cuidadosa com esse trabalho de acabamento.  

 

Dragonlance é um clássico e merece ser lido. Tem problemas? Muitos, algumas coisas já são bem datadas e superadas para a fantasia contemporânea, mas, ainda assim, a história conseguiu trazer elementos que se tornariam base para muitos outros romances e referências em mesas de D&D. Não é difícil ser cativado pela história e se divertir com ela. Se você está à procura de um livro no gênero de fantasia medieval, essa é uma boa sugestão. Se você, além de estar procurando um livro do gênero e estiver começando em D&D, Dragonlance é incontornável e, sem exagero algum, vai servir de inspiração tanto se você for um jogador ou mestre iniciante. Para os veteranos, vale a pena ter o livro em sua coleção.

Ricardo Oliveira

Ricardo Oliveira

Psicólogo Analista do Comportamento, Amante de cinema, fotografia e literatura sci-fi.