Ficção Científica – Uma (breve) introdução.

Quando falamos em Ficção Científica (FC), os sentimentos despertados nas pessoas são dos mais diversos, desde rejeição à simpatia. Para muitos, FC é sobre cientistas loucos que querem dominar o mundo, batalhas espaciais, futuros distópicos ou invasões alienígenas. A verdade é que o termo serve de guarda-chuva para rotular muita coisa e, nessa brincadeira, algumas barreiras surgem no momento em que estamos diante de uma série, filme ou livro. A FC nunca deixou de evoluir e acompanhar mudanças sociais e culturais; mesmo em algumas obras ambientadas em um futuro próximo ou muito distante, a FC dialoga muito com temas relevantes vivenciados no presente. Sendo assim, olhar para o gênero como algo linear e restrito a uma fórmula é se fechar para uma experiência literária ou cinematográfica que pode ser mais do que mero passatempo – em alguma medida, até necessária, com grandes chances de nos levar à reflexão.

Pensando nisso, decidi compartilhar os resultados das minhas pesquisas em forma de conteúdo para o site do Tabuleiro Nerd, como fã que passou a estudar sobre o tema (unindo o útil ao agradável). Não tem sido uma tarefa fácil reunir todo material de livros, artigos, documentários e entrevistas; porém, mesmo trabalhoso, a tarefa tem sido bastante recompensadora, a qual já rendeu um painel na segunda edição da Campus Party Bahia , realizada aqui em Salvador, com o título ‘Pioneirismos em Star Trek’ – painel este que apresentei com Larissa Bacelar, cuja iniciativa surgiu a partir de um vídeo gravado por ela para o nosso canal.

Uma definição

Como já comentado na introdução, definir ficção científica não é tão simples quanto parece. Desde o seu surgimento até os dias atuais, muito tem se discutido sobre e não são poucas as definições que surgem entre críticos e escritores, sem contar seus desdobramentos em diversos subgêneros. Portanto, a tentativa de encontrar uma definição que contemple toda essa diversidade normalmente pode deixar algum detalhe ou informação de fora… Por ora, uma definição que ajuda a nos introduzir ao tema (e que considero bastante razoável) é:

 

“A FICÇÃO CIENTÍFICA É UMA VERTENTE DO MODO FANTÁSTICO QUE TRATA DA INFLUÊNCIA SOBRE A SOCIEDADE DE ALGUM ELEMENTO OU INOVAÇÃO DA CIÊNCIA OU DA TECNOLOGIA QUE É APRESENTADA DE FORMA EXTRAPOLADA”

(Meireles, 2017)

Essa definição ajuda a perceber o enorme potencial que a FC possui; não é apenas sobre alienígenas, robôs em crises existenciais, sabres de luz ou naves espaciais, podendo interagir com os mais variados temas, ambientados em cenários que podem, também, ser fundamentados na ciência real ou especulativa (quando se fala em extrapolação).

É provável que essa percepção da FC como um gênero restrito a aventuras espaciais esteja no fato de que, durante muito tempo, a “Space Opera” foi predominante nas revistas dedicadas ao gênero e nos programas de TV dos EUA (Buck Rogers, Flash Gordon p. ex). “Space Opera” já foi um rótulo muito usado por críticos para diminuir o valor literário da FC, redundando em generalizações simplistas:

 

“Alguns críticos estariam se referindo  à space opera quando menosprezam a ficção científica, pois a avalanche de livros sem importância faz passar despercebido o que realmente vale a pena ser lido. Não é fácil reconstituir todas as razões pelas quais muitos se voltam contra o gênero criticando-o de maneira acerba, nem sempre bem justificada.”   

(Carneiro, 1967)

 

O próprio termo “Space Opera” passou por mudanças no significado e aplicação ao longo dos anos até o lançamento de Star Wars, que ajudou a impulsionar este subgênero da FC, dando um novo sentido (menos pejorativo). No cinema, em sequência a Star Wars, temos: O Último Guerreiro das Estrelas (1984), Duna (1984), Tropas Estelares (1997), O Quinto Elemento (1997) e, mais recentemente, Os Guardiões da Galáxia (2014). Além do cinema, a “Space Opera” se faz presente em séries e games, como Halo e Mass Effect.

Há também a ideia de que ficção científica é para quem curte ciência. Logo, o gênero seria uma leitura complicada e restrita a um nicho, o que não é verdade. Embora a ciência seja um elemento presente em grande parte das histórias, não quer dizer que uma boa narrativa de FC deva seguir à risca critérios científicos. Um bom exemplo que ajuda a ilustrar essa questão é uma das orientações do criador de Star Trek (Gene Roddenberry) à equipe de roteiristas da série (clássica). Ele e D.C. Fontana elaboraram um guia de como escrever os roteiros e uma das recomendações era “conte uma história sobre gente, não sobre ciência ou coisas”.

É importante observar, dentro desta definição do prof. Meirelles, a indicação de que a ficção-científica possui suas origens no fantástico. Antes do seu nascimento enquanto gênero literário propriamente dito, haviam produções que flertavam com algum método ou explicação científica, e não o sobrenatural ou magia. Um exemplo é o romance de Mary Shelley (1797-1851), Frankenstein: Or The Modern Prometheus (1818), que é considerada por muitos como uma das precursoras da FC, onde a autora recorre aos experimentos de Galvani com a bioeletricidade como inspiração para o método utilizado pelo jovem Dr. Frankenstein para dar vida a sua criação.

Conclusão

Ficção científica, como demonstrado, compõe um universo que não se limita apenas a apresentar uma boa definição. É um debate interessante, principalmente para os interessados em aprofundar os conhecimentos sobre o gênero. Particularmente, para além de um interesse mais formal, o que me encanta nesse processo de “garimpagem” é a possibilidade de, a cada passo, descobrir um novo universo e ser tragado pelas histórias, seja Space Opera, Cyberpunk ou New Weird. O que importa é manter a cabeça aberta para experimentar todos esses mundos criados pelos escritores. Posto isso, podemos avançar para uma próxima etapa, que é conhecer o responsável por lançar a Ficção Científica nos EUA através das famosas Pulp Fiction, o controverso Hugo Gernsback, tema do nosso próximo texto.