Impacto do racismo de Monteiro Lobato

A literatura brasileira é rica em diversos aspectos. Desde as clássicas obras de Machado de Assis, à nomes mais recentes, como André Vianco e Raphael Montes, é notável a qualidade de criação e legado em suas obras. Porém, há um lado “obscuro” na literatura brasileira que tem sido debatido nos últimos tempos que mostra como ainda é difícil para algumas pessoas enxergar essas contribuições literárias pela perspectiva racial e social, e de que forma estas podem afetar quem as lê.

 

É impossível não conhecer, ou ter ouvido falar sobre os livros de Monteiro Lobato, que tanto fizeram parte da infância de várias gerações de brasileiros. Tida como leitura obrigatória nas escolas, suas obras, a primeira vista, traziam um enredo de fantasia infantil que encantaram seus leitores pequeninos. Contudo, essa fantasia foi remetida com a revelação dada em 2018, onde cartas em que Monteiro Lobato foram apresentadas e, seus conteúdos traziam elogios à KKK (Ku Klux Klan) – seita supremacista que assassinava negros e incendiava cruzes nos Estados Unidos – foram apresentadas ao público.

 

“País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan, é país perdido para altos destinos”, disse, em uma de suas cartas.

 

A discussão sobre o cunho racista de suas obras é de longa data, e alguns estudiosos da educação, bem como professores, ainda questionam se isso é verídico ou não. Justamente uma significativa parte desses, que, conforme o artigo “As relações étnico-raciais na Literatura Infantil e Juvenil”, são brancos, não sofrem ou não sofreram os impactos do racismo em suas vidas.

 

Após revisitar suas obras durante os anos, se tornou notório a influência da construção racista para suas narrativas. Há quem tente ir de encontro a essa avaliação, argumentando que Monteiro Lobato retratou apenas a realidade brasileira à sua época em suas obras. No livro “Caçadas de Pedrinho” (1933), Tia Nastácia é chamada por nomes como “macaca de carvão”, “carne preta”, “beiçuda” e várias outros termos que hoje, sabemos ser insultos de cunho racial. Nesses aspectos, muitas vezes incidimos de comentários que evitam o levantamento dessas questões para os tempos atuais, da mesma forma que a avaliação da repercussão dessas mesmas histórias para as gerações atuais, insistindo, por vezes, que não se pode julgar suas obras com as “réguas” atuais.

 

Mas quais os impactos que essa avaliação naturalizada de suas obras pode trazer à vida de crianças que acompanhavam suas obras? Ale Almeida, escritor e pesquisador de mitologias e narrativas africanas, conta um pouco como essa leitura impactou em sua infância: “As ofensas raciais ganhavam um sentido doloroso para mim e para maioria dos alunos negros. Não havia variação de cor para o racismo impregnado, todos eram o “negro carvão” ou “cor de lodo” como Tia Nastácia já foi referida algumas vezes.”. Ouvindo sua participação em podcast, refletiu a mim como um “soco na cara” tal reflexão. Lembro-me de estar em uma loja, por volta dos meus 8 anos, olhar no espelho e me sentir uma pessoa feia, sem me sentir igual às outras crianças retratadas na tv e revistas.

 

O reconhecimento racial é recente, e a forma como somos mostrados na mídia, impacta significativamente para as antigas, novas e futuras gerações de negros. Com a representatividade no cinema, séries e afins, se constrói uma nova narrativa e história para aqueles que sofreram, e ainda sofrem, por esse racismo impregnado em nossa história.

 

 

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Ronan Carvalho

Designer, Gamer, Membro da Tropa dos Lanternas Amarelos e morador de Hell's Kitchen