Live by Night “A Lei da Noite”

 

Filme lançado no início de 2017 no Brasil, classificado como “projeto dos sonhos” segundo o diretor, roteirista e também protagonista, Ben Affleck, a trama é uma adaptação do romance policial Live by Night de Dennis Lehane, 2012 (Filhos da Noite, publicada pela Companhia das Letras), e conta com a participação de Leonardo Di Caprio na produção. A drama policial narra a história do Joseph Coughlin (“Joe”, Ben Affleck) na sua ascensão à derrocada no mundo da criminalidade, como um gangster de origem irlandesa à serviços da máfia italiana, liderada por Maso Pescatore (Remo Girone) no controle da produção e distribuição de rum no sul dos Estados Unidos.

As duas horas e nove minutos de filme estão distribuídas em três atos que fazem a introdução do personagem, de forma enxuta, sendo bem conveniente a utilização do artifício de flashback para tal no primeiro momento; a posterior ascensão, revelada pela habilidade intrínseca ao personagem, que contempla a arte da negociação, e o caminhar de muito diálogo, jogos de interesses, poder e princípios dominam a trama e; por fim, a tomada de poder e desfechos pessoais, marcada por muita ação e violência fecham o ciclo. O plano de fundo da narrativa inegavelmente transcende a década 1920, marca da Lei Volstead (Emenda 18), também chamada de “Lei Seca”, que estende a proibição do consumo e comercialização de bebidas alcóolicas em todo território norte-americano, o que alimenta o acirramento de fortes organizações que atuavam na produção e contrabando desse tipo de mercadoria.

O filme é conduzido no tom melancólico, de lentes próximas (enquadramento na altura dos ombros), característica observada também em outro filme do diretor (The Twon), e de composição visual muito bem trabalhada, sendo clara a atribuição de filtros extremos que demarcam o território em cena (Boston, cores frias, remetendo à sobriedade do centro das rivalidades e, Flórida com seus tons quentes, que conotam a um ambiente de clima subtropical, além da própria influência latina local). A trilha sonora assinada por Harry Gregson também marca o passo da história e suas viradas.

A adaptação de livros para cinema é sempre um assunto que gera discussões. Ousamos dizer que neste caso, foi uma produção bem arriscada principalmente por se tratar de um livro de narrativa onisciente, rico em detalhes que definem a identidade da trama e seus personagens. Por ser uma narrativa extensa, condensar tanta informação em uma produção audiovisual pode incorrer na incompleta compreensão por quem assiste, da mesma forma que na omissão do desenvolvimento de algum personagem marcante, como é o caso da Emma Gould (Sienna Miller), que se faz presente em boa parte do livro.

Das considerações a serem feitas sobre o filme, vale destacar a performance recorrente do Ben Affleck não apenas na direção e roteiro, mas na narração e atuação principal não muito convincente, que não dialoga fluidamente com os colegas de cena, se tornando raso muitas vezes quando (pela expectativa) deveria considerar as variações nas expressões emocionais. Em contrapartida, a evolução do “incorruptível” Chief Irving Figgis (Chris Cooper) consegue ser surpreendente, dando tom inesperado ao desfecho do filme.

Para concluir, podemos categorizar que este é um filme de terceiro ato, que levou a identidade do diretor no roteiro e condução da trama, e que revive de forma geral, o estilo Scarface às telonas, sendo detentor de referência à elementos da época, como as roupas, modelos de armas e, veículos como, os Ford A e Dodge DC, que incorporam a ação policial, mas que também, compõem, como plano de fundo, o conflito de princípios, facilmente expostos à episódios de grandes mudanças na vida do “homem sob o chapéu enterrado na cabeça”.

 

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Danielle Sodré
Sobre Danielle Sodré 34 Artigos
Engenheira Ambiental e Sanitarista. Fã da Mulher-Maravilha. Entusiasta por representações femininas na cultura pop e suas repercussões

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