O mundo feminino de ‘O Poder’

A literatura tem um poder de nos teletransportar para diversas histórias, em tempos e eras diferentes. Desde os tempos medievais na terra média à convivência com androides, há sempre uma narrativa atrativa nas linhas que se sucedem. Com certeza, as distopias são a mais atrativas do gênero da ficção. Imaginar um lugar ou estado em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação, a acaba por exercitar nosso imaginário. E nessa quarentena, me deparei com uma obra que foi uma grata surpresa.

 

A primeira coisa que me chamou a atenção em O Poder, escrito por Naomi Alderman, é uma crítica estampada em sua contracapa: ” ‘Jogos Vorazes’ encontra ‘Contos da Aia'”. Parece um exagero marketeiro, mas a crítica faz jus ao conteúdo lido. O livro foi lançado pela Editora Planeta do Brasil, em 2018 e narra a história de um futuro próximo, onde as mulheres desenvolvem um estranho poder: elas se tornam capazes de eletrocutar outras pessoas, através de um novo órgão chamado de trama, infligindo dores terríveis… até a morte. De repente, os homens se dão conta de que não estão mais no controle do mundo.

 

Seria precoce assumir que O Poder se trata de uma obra estritamente feminista, como assim fosse um manifesto. A obra tem o cuidado de apresentar um recorte de estruturas sociais em conflito com a mudança na forma e direção do sentido amplo de poder. Nesse sentido, a autora consegue fazer um contraponto, trazendo muito bem colocado sob a perspectiva de dominância às mulheres. Acompanhamos a história pelo ponto de vista de quatro personagens: Margot, Tunde, Roxy e Allie. A narrativa se assemelha bastante a feita por George R. R. Martin, nas Crônicas de Gelo e Fogo, mas, aqui é mais simplista, mostrando poucos encontros dos personagens principais, o que difere da obra medieval, o que não diminui o seu impacto.

Naomi Alderman

 

Durante história vemos a ascensão das mulheres ao poder de forma gradativa, em represália a milênios  de opressão orquestrada pelos homens. A primeira das reviravoltas, acontece na Arábia Saudita, não por acaso, um dos países que têm como base em sua estrutura política/ religiosa a subordinação violenta da mulher. Lá as mulheres não podem andar de mãos dadas com homens ou dirigir. É significativo que as mulheres descubram sua força em um lugar que retira, isola e torna negativo qualquer tipo de força (ascensão) feminina.

 

Quando, finalmente, o desfecho vem com a subversão da ordem, vemos a genialidade de Naomi, ao mostrar que a opressão não está condicionada ao gênero, mas ao poder. Mostra que antes do gênero, existe a natureza humana com suas fraquezas. O poder, portanto, muda o equilíbrio da balança e gera situações extremamente semelhantes às que aconteciam na sociedade dominada pelos homens.

 

Com uma alegoria muito clara ao feminismo, quando uma personagem diz “É assim que funciona. As mulheres mais novas despertam aquilo nas mais velhas; mas, de agora em diante, toda mulher terá aquilo.”, O Poder se mostra uma obra de grande valia e deveras atual, pronto para uma discussão em vários aspectos e, de forma completa. Vale muito a leitura.

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Ronan Carvalho

Designer, Gamer, Membro da Tropa dos Lanternas Amarelos e morador de Hell's Kitchen