O retrato da adolescência moderna em ‘Ferrugem’

13 Reasons Why foi uma série que, apesar dos seus altos e baixos, trouxe um assunto bastante pertinente à tona: o suicídio. Junto a isso, trouxe também, um pouco da visão moderna da vida “high school” e como o bullying se faz tão presente na vida desses jovens. Apesar dos benefícios, a série da Netflix retrata um cotidiano americano. Em contrapartida, chega aos cinemas, uma outra produção que vai conversar diretamente com o público sobre esses temas.

Ferrugem, filme dirigido e co roteirizado por Aly Muritiba, chega para conversar com a geração focada nos “likes”. O filme acompanha Tati e Renet, juntos e separados. Em vias de um princípio de encantamento mútuo, eles precisam lidar com o vazamento de um vídeo íntimo dela com um ex-namorado, que em poucos dias transforma tragicamente suas realidades.

O filme consegue mostrar bem a decadência moral da protagonista, diante da comunidade escolar. A culpabilização da mulher nessas horas é quase palpável, que é impossível não lembrar dos diversos casos de vazamentos não ficcionais repercutidos e toda sua reação pelo lado sombrio da tecnologia, que acaba sendo quase uma condutora da narrativa, porém é deixada de lado em determinado momento.

A história se divide em duas partes, cada uma delas focada em um dos protagonistas. A da Tati (a estreante Tifanny Dopke) é solitária, em busca de defesa e do responsável pelo vazamento. A inoperância e ausência dos pais é tão forte, que nem é dado rostos a eles, e a solidão da personagem é clara. Com pouco tempo de tela, fica uma sensação de quase insensibilidade. Não nos aprofundamos nela, e quase não se é sentida sua falta. Na parte 2, acompanhamos Renet (Giovanni de Lorenzi), e as consequências do ocorrido. A perda da companhia, as revelações e o acobertamentos dos pais, que tem uma profundidade em relação aos da Tati, muito maior e mais relevante, dando não só rostos, mas também profundidade em tramas que não agregam à narrativa.

Como o maior vencedor do Festival de Gramado 2018, e exibido em Sundance, Ferrugem é uma importante obra, não só pelos prêmios, mas por conversar com uma geração que, apesar de possuir toda informação na mão, ainda é tão focada nas repercussões das redes sociais, em “likes” e “views”, e a mensuração das consequências de seus atos que expõem as vidas de outrem fica quase que rarefeita. Talvez não impressione tanto, mas deixa reflexões importantes.

Sobre Ronan Carvalho 83 Artigos
Designer, Gamer, Membro da Tropa dos Lanternas Amarelos e morador de Hell's Kitchen