O retrato das relações abusivas em ‘Dias Perfeitos’

Raphael Montes é um dos escritores da nova geração literária brasileira. Me surpreendi ao saber de sua pouca idade e com sua escrita tão envolvente, que lhe deixa vidrado no livro – inebriação que só finaliza após o virar da última página. Após ler o excelente ‘O Vilarejo’ – que tem um clima mais puxado para o terror estrangeiro -, me aventurei a ler ‘Dias Perfeitos’, seu segundo livro. Digo, sem sombra de dúvida: ele já é um escritor completo.

Em Dias perfeitos, somos apresentados a Téo, um universitário metódico que se vê obrigado a cuidar da mãe paralítica. Sem fazer questão de criar amizades, a vida dele se resume a faculdade de medicina e a dissecação de cadáveres no laboratório. Tudo muda quando ele conhece Clarice em um churrasco, no qual foi obrigado a comparecer. O jeito extrovertido e despreocupado da aspirante a roteirista de cinema o encanta e, de repente, ele se descobre apaixonado. Devido ao seu jeito estranho de tentar se aproximar da garota, ela acaba rejeitando-o, mas Téo está determinado a conquistar Clarice. Para isso, ele tornará reais as cenas de um roteiro que está sendo escrito por ela, mesmo que isso envolva o uso da força.

Escritor, Raphael Montes

O livro é uma alegoria para relacionamentos abusivos, psicopatia e obsessão. A utilização de um narrador pela visão do psicopata mostra uma mente que deturpa toda situação, que, em pequenos momentos, você até sente alguma empatia por Téo, mas é subvertido na próxima linha, tamanha a crueldade dos acontecimentos.

Téo é o retrato do “macho alfa” e toda sua ação é de controle, necessitando de absoluta obediência. Como dito pelo próprio Raphael, a história é um tom acima do que é realidade dos relacionamentos, onde o controle do parceiro sobre a mulher passa de abusos psicológicos para os físicos.

Com momento angustiantes e um final que pode frustrar o leitor, Dias Perfeitos entrega um romance policial sobre a psique de um indivíduo com defeito de fábrica. Deve ser lido o mais breve possível e ter na prateleira. Conduto, cautela na leitura: nunca se sabe do que a mente humana é capaz…

Sobre Ronan Carvalho 83 Artigos
Designer, Gamer, Membro da Tropa dos Lanternas Amarelos e morador de Hell's Kitchen