‘Oito Mulheres e um segredo’: uma releitura contemporânea à franquia

Porque em algum lugar no mundo há uma garotinha de oito anos deitada na cama, agora mesmo, sonhando com o dia em que ela poderá ser um criminosa. É por ela que vamos fazer isso!

Atrizes de peso contracenam em uma valsa cinematográfica sob a perspectiva feminina, rumo à “caça ao tesouro”. Seria pretensioso dizer que, este ocuparia o lugar fã service da franquia Ocenan’s, pelo contrário, vem a renovar o legado dos carismáticos criminosos que as antecedem – pra não falar que isso está mais para um negócio genuíno de família.

A trama tem muito bem estabelecido um início e fim, e, como evidenciado desde sua primeira cena, a produção deixa bem claro se tratar de mais um filme subsequente da franquia, com referências empolgantes, que sem dúvidas vieram a agradar os apreciadores das sequências para o cinema.

Bem alinhado, o filme não comete falhas quanto a perda de personagens em cena – fator muito ponderado em outras películas que tentam trabalhar com protagonismo dissociado e/ou muitos personagens em tela, pelo contrário, a interação entre as peças centrais evolui gradativamente sem comprometer o espaço entre os perfis já apresentados e histórias pessoais, ao encontro de todas em mesma cena e posterior repartição.

Além disso, e, entendendo a evidente diferença percebida quando uma obra passa pelo roteiro e produção com participação feminina, vemos através dos resultados em tela da existência de representações muito mais possíveis das figuras apresentadas, facilmente observadas pela aplicação de enquadramentos (como, plano americano, meio primeiro plano e primeiro plano) que dão destaque às expressões faciais e aos olhares das personagens, sem incorrer ao destaque às curvas e silhuetas das mulheres – sim! é possível representar uma mulher esplêndida em tela, sem recorrer à sensualidade ou sexualização.

A sincronização desses fatores, da mesma forma que interação harmoniosa entre as personagens, não nos dá a garantia que este seja um filme sobre feminismo e/ou sororidade. Apesar de ser um filme repleto de acertos (principalmente por atender uma demanda das atrizes hollywoodianas, de ampliar a participação feminina nas produções cinematográficas, em seus mais variados aspectos), o mesmo não tem a pretensão de trabalhar a pauta – o que também, não o torna um filme ruim ou “carente” da pauta feminista. Nesse sentido, como já mencionado anteriormente, a participação feminina no roteiro (Olivia Milch) pode ter contribuído para a construção de um ambiente muito mais permissivo aos espectadores, a partir da introdução sutil da demanda do empoderamento, usando para isso, momentos divertidíssimos para tratar desses assuntos.

Audacioso, o plano arquitetado por Debbi Ocean durante seu período de reclusão – mais precisamente por cinco anos, três meses e doze dias, deu mais do que certo – e que certamente deixaria sua família bem orgulhosa, foi uma surpresa bem divertida e envolvente, valendo a pena ser assistido mais de uma vez!   

P.S. O filme passa tranquilamente no teste de Bechdel!

Danielle Sodré
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Engenheira Ambiental e Sanitarista. Fã da Mulher-Maravilha. Entusiasta por representações femininas na cultura pop e suas repercussões