Os ecos de Édipo Rei em Detetive Pikachu

por Roberto Nascimento

 

Em Pokémon – Detetive Pikachu, cai no colo de Tim Goodman a missão de investigar a morte do próprio pai, o detetive Harry Goodman. Sua vida já havia sido por demais frustrada pela morte da mãe e pelo abandono do pai, circunstâncias que, como se não bastassem por si, ainda o fizeram desistir de explorar seu talento como treinador de pokémon. Agora, seu pai estava dado como morto e Tim, como único parente vivo do detetive, com toda a má vontade de quem é forçado a sair da rotina pacata que lhe dá segurança – emocional, sobretudo -, tinha de viajar para longe a fim de organizar a bagunça material que os vivos costumam herdar dos mortos. Sem laços fortes com o pai, a quem não via desde criança, Tim pretendia apenas recolher os bens da delegacia onde Harry trabalhava, ajeitar o que fosse preciso no espólio do morto e retornar para sua vida de aprendiz de burocrata, bem longe de pokémon, agitos e incertezas.

 

Mas eis que entre os bens de seu pai, ou melhor, num mundo em que os “animais” são dignificados à altura de um ser humano, eis que seu pai não era sequer tutor, mas parceiro de um Pikachu. Um pikachu desmemoriado, aborrecido (o melhor do humor no filme é o mau humor que o pikachu dispensa ao Psyduck e a outros semelhantes seus) e que ao falar consegue ser entendido por Tim muito além do irritante “pika-pika”. Esse parceiro improvável, arrasta-o para uma aventura na qual Tim nem é propriamente o investigador da morte do pai, mas o ajudante do detetive pikachu.

 

O roteiro é bem conhecido, principalmente por quem está acostumado com a Sessão da Tarde, de maneira que é possível deduzir com facilidade como vai se desenrolar o filme. Mas ainda é uma história de detetive, com capacidade de prender o espectador, instigá-lo e oferecer-lhe um bom mistério. E é aí que reside o trunfo dos realizadores de Pokémon – Detetive Pikachu, que souberam atualizar a fórmula detetivesca mais velha do ocidente dentro do universo dos monstrinhos ou, vendo por outro lado, souberam conferir a esse universo alguma dignidade ao beber do cânon ocidental. Isso porque, surpreendentemente, Pokémon – Detetive Pikachu ecoa as lições de Aristóteles a partir do Édipo Rei, de Sófocles.

 

Histórias detetivescas, em maior ou menor grau, trazem à lembrança a obra Édipo Rei, que foi honrada por Aristóteles com o título de peça modelo da tragédia. E, surpreendentemente, estão no filme – guardadas as devidas limitações de uma história que precisa ser de fácil deglutição – alguns dos elementos que fizeram a peça de Sófocles ser escolhida como modelo pelo sábio estagirita: o reconhecimento, a reviravolta e a catarse. A semelhança mais óbvia, porém, entre Pikachu e Édipo está no próprio destino do herói.

 

Édipo, o primeiro detetive do ocidente, começa sua saga a partir da necessidade de descobrir e punir o assassino de Laio, antigo rei de Tebas, pois a impunidade havia feito com que os deuses lançassem uma peste sobre a cidade e a população estava recorrendo ao rei a fim de que agisse para acabar com o seu sofrimento. Édipo, que então ocupava o trono, descobre que ele próprio era o assassino que procurava, que havia matado seu pai, Laio, e desposado sua mãe, Jocasta, o que levanta as questões da identidade do herói e de que suas ações não driblam, antes o levam a cumprir o destino do qual fugia.

 

 

 

Assim acontece com Pikachu, que, sem memória, ou seja, tal como Édipo, sem conhecimento preciso do passado e de si mesmo, pensa ser um mero investigador embora seja também o objeto e a solução da sua investigação. Quanto ao outro herói, Tim, o seu destino de treinador de pokémon trata de encontrá-lo enquanto foge.

 

Então, essas semelhanças significam que os realizadores de Pokémon Detetive Pikachu fizeram uma escolha deliberada de roteiro a fim de aproximar sua história da obra-prima de Sófocles? Não é possível afirmar. E, se foi deliberada a escolha, o intuito foi “democratizar” Sófocles ou elevar Pokémon? Também não dá pra dizer.

 

O que dá pra dizer mesmo é que as cabeças dos gregos sustentam ainda hoje Ocidente, de modo que aos contemporâneos é dado realizar boas obras à medida que não renegam mas aceitam e reverenciam a linhagem de artistas, sábios e poetas precedentes. No que diz respeito unicamente às histórias de detetive, nessa linhagem estão Agata Christie com Poirot e Miss Marple, Chesterton com o Padre Brown, Simenon com Maigret, Allan Poe com Auguste Dupin e até o excessivamente racionalista Conan Doyle com Sherlock. Todos esses só existem porque antes existiram Dostoiévski, Goethe, Shakespeare, Dante, Virgílio, Sófocles, Homero. Dito de outro modo, chegamos mais longe quando subimos nos ombros dos gigantes (mas não é isso mesmo que pikachu gosta de fazer?). Ainda que com aparência orientalizada, eis o nosso destino inescapável.

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