Para Disgraça! – uma quarta para não esquecer

A violência está presente em nosso cotidiano. Já se tornou rotineiro abrir os portais de notícias, ou ligar a TV, e se deparar com reportagens enfatizando, dia após dia, o retrato da violência. Para a população preta e periférica, esse cotidiano acontece nas portas das casas, ou pior, dentro destas. Muito dessa violência é proporcionada pela mão do Estado que deveria nos proteger, e é sobre isso que está posto no livro que li esses dias.

 

Em “Para Desgraça – Uma Quarta Para Não Esquecer”, o ator baiano, Leno Sacramento, conhecido pelo papel de Raimundiho em “Ó Paí, Ó” conta o ocorrido da quarta-feira de junho de 2018, onde na Avenida Sete, em Salvador, foi alvejado na perna por policiais que estavam à procura de dois jovens negros que estavam sendo acusados de “tocar o terror” no Campo Grande, região próxima. Olharam para Leno, decidiram que ele era o bandido que procuravam, e atiraram.

 

No livro, Leno faz um recorte da sua vida até o momento em que foi alvejado. Mas, mais do que falar do fatídico dia, ele conta sua própria história, tentando mostrar ao máximo que não se resume unicamente ao ocorrido. Fala de suas vivências com sua mãe, irmão e avó. Essa última, contando um trecho bem-humorado de como fazia sua reserva financeira. 

O ator, Leno Sacramento

Sobre o dia fatídico, Leno descreve os momentos antes, durante e depois, além de toda repercussão que decorreu desde então. Ao ler as menos de 45 páginas do livro, me deparei com um sentimento de verdadeira angústia e claustrofobia, ao imaginar as cenas de um homem negro, ferido na perna, dentro de uma viatura com seus algozes – imagino de imediato que de lá, não sairia vivo. Logo penso que também poderia ser algum conhecido, amigo ou familiar. O que impediria que o que aconteceu com Leno, não aconteceria comigo? Nesse contexto, me remeto à canção do Emicida, “Ismália”: “existe pele alva e pele alvo”.

 

“Para Desgraça” é um livro para te fazer refletir sobre como a violência ainda é desleal (e muito) com a população preta. Dentro de tudo que foi escrito, Leno Sacramento fala da “sorte” de ter acontecido isso a ele, pois pode contar para as pessoas e trazer, mais ainda, uma luz sobre o assunto, principalmente, mostrar que nossa história e luta não deve se basear apenas na dor. 

 

Como diz a poesia, que encerra o livro, “quando chegar ao fim, podemos apagar as luzes, e quando acender estaremos lá, erguidos de punho cerrados e corpos blindados recebendo aplausos”.

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Ronan Carvalho

Designer, Gamer, Membro da Tropa dos Lanternas Amarelos e morador de Hell's Kitchen