Representatividade feminina: uma expressão da moda?

Por Danielle Sodré | Revisão por Bianca Cardeal

 

Em pleno ano da comemoração dos 75 anos da super-heroína combatente da guerra e do patriarcado na terra dos homens, do seu (quase) reconhecimento enquanto personagem embaixadora da ONU para a autodeterminação das mulheres e meninas, 2017 está sendo marcado pelo avanço da inserção das mulheres frente às produções de conteúdos, na roteirização de quadrinhos, na direção de filmes e no protagonismo em tela.

A presença das mulheres e, seus posicionamentos de enfrentamento, não demorou muito a “ameaçar” a “sólida” estrutura constituída pela cultura nerd/geek heteronormativa. Por muitas vezes, tentaram utilizar como argumento o envolvimento dessas mulheres enquanto protagonistas na derrocada de suas produções/participações como, observamos recentemente, na queda da vendagem de recentes títulos da Marvel, ou mesmo a desqualificação de super-heroínas com ascensão ao papel de destaque para o cinema.

Os grupos que hoje assumem a rotulação de nerds ou geeks (assunto já discutido em outras publicações), se apresentam em aceitação pela sociedade, contudo, há uma inversão de papéis. Os amantes de conteúdos da cultura pop há muito não eram vistos com “bons olhos” pela comunidade em geral, assumindo um perfil diferenciado e, muitas vezes, excludente do contexto social no qual se fazia parte (oprimido). Desta vez, ao passo de sua aceitação (muito mais como uma cultura de consumo rentável), tais grupos passam a dialogar com outrem a partir de uma ideia agregadora e de inclusão, mas não de todos, no caso, todas… (opressão).

O enfrentamento ao machismo, em suas diferentes faces, não é um fator inerente (que culpabiliza) aos grupos nerds/geek, mas de uma amplitude que extrapola a simples escolha entre preferências culturais (Marvel ou DC), está nas formações individuais, nos meios de discussão, no envolvimento social etc.

Não seria diferente, portanto, que em algum momento fosse colocado em questionamento a atuação das mulheres enquanto protagonistas nesse meio, socialmente fechado e, claramente representado por homens (cis, héteros e brancos). Não estamos pondo em cash a inexistência dessas mulheres no envolvimento da cultura pop, muito pelo contrário, o envolvimento destas sempre existiu… nos bastidores, no desenvolvimento (impronunciável) de importantes plataformas de games, tecnologias, filmes etc. A questão é que atualmente ocupamos um lugar de expressivo interesse na cultura pop (informação facilmente encontrada em qualquer site de busca), no consumo dos souvenirs, na interpretação de personagens favoritos, na leitura de quadrinhos… mas daí vem os questionamentos de muitas mulheres e meninas: “Me sinto representada nesse meio?”, “Os personagens e produtos se aproximam da realidade dessas consumidoras?”, “As produções assinadas por mulheres recebem o mesmo investimento e/ou marketing que a das representações masculinas?”

Todas essas questões, nesse cenário, começaram a instigar a cobrança pelo debate da representatividade feminina no meio nerd à abertura de novos espaços (que não é de hoje), para que essas consumidoras possam se sentir pertencentes à cultura e possam desenvolver conteúdos com suas impressões digitais, não para agradar apenas um público, o masculino.

Apesar de não ser via de regra, grupos organizados (e de respeito!) vem abordando esse importantíssimo debate com uma certa constância,  fundamentados na pauta da representatividade feminina e no combate à hipersexualização das personagens, e que, inevitavelmente, tem propiciando o interesse pelo assunto por outros grupos na cultura nerd à apropriação da pauta. Por um lado, o despertar do interesse é um ponto positivo e de conquista, mas que perde a força e se torna uma pauta esvaziada quando o interesse se apresenta meramente estético e pontual.

Por ser um tema de peso em termos de repercussão, outros grupos o assumem como pauta por entenderem que assim, se tornam participativos do debate, inclusivos com as problemáticas, mas esquecem de aprofundar no cerne da questão (e, muitas vezes, de propriamente internalizar na dinâmica grupal). Essa postura acaba por configurar a representatividade feminina como uma temática com prazo de validade, como hype do momento – perdendo, posteriormente, a continuidade (insistência) na problematização à uma solução tangível para a questão.

Nesse sentido, o desenvolvimento (construção) de um discurso que contemple a representação feminina dentro do contexto nerd (atuação, desenvolvimento de conteúdo, postura social) deve ser assumida como uma responsabilidade coletiva aos grupos, iniciativas, indivíduos, pois se trata de um diálogo constante, a ser praticado todos os dias, não servindo apenas como elmo novo (um capricho do momento), para ser exibido apenas em dias de batalha.

Danielle Sodré

Danielle Sodré

Engenheira Ambiental e Sanitarista. Fã da Mulher-Maravilha. Entusiasta por representações femininas na cultura pop e suas repercussões

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.