Representatividade para quem?

O tema da representatividade encontra-se em voga na indústria cultural. Assunto esse, que por muito tempo foi requisitado por seu público consumidor. Contudo, vemos que a formatação da representatividade é pouco inspirada no que pauta as lutas e demandas dessa minoria, o que por sua vez, fragiliza a importância de uma verdadeira discussão sobre, assumindo a figura de um produto do mercado liberal.

 

Os resultados desse trabalho de visibilidade, faz um movimento de trazer aos holofotes quem sempre esteve, em sua maioria, nos bastidores da produção da grande indústria do entretenimento. Mas se observar bem, os efeitos desse movimento não alcança diretamente a maior parcela da população a qual deveria representar, apenas mostra que a classe dominante da mídia tem algo a tirar (explorar) desse público. Marx fala disso no livro ‘A Ideologia Alemã’ quando afirma que “os pensamentos da classe dominante são, também, em todas as épocas, os pensamentos dominantes, ou seja, a classe que tem o poder material dominante numa sociedade é também a potência dominante espiritual. A classe que dispõe dos meios de produção material dispõe igualmente dos meios de produção intelectual; de tal modo que o pensamento daqueles a quem é recusado os meios de produção intelectual está submetido igualmente à classe dominante”. Em resumo: a classe representada irá pensar exatamente como a detentora da mídia orquestrar.

 

Para um exemplo mais prático, trago aqui o clipe da música “Moonlight” do Jay Z, o qual tem o título referente ao filme ganhador do Oscar de melhor filme em 2017, que tem a lambança da premiação mais lembrada do que o filme em si. O clipe começa com uma esquete de Friends com atores negros. Tudo reproduzido exatamente igual à famosa sitcom. Em determinado momento, numa pausa da gravação, acontece um diálogo entre o protagonista e o um cara nos bastidores. Na conversa, ele simplesmente diz que o que estão fazendo ali é um lixo. De forma metalinguística, o diálogo quer mostrar que nada daquilo que está lá é de fato representativo para cultura negra, sendo só uma reprodução de uma cultura massiva branca, a classe dona dos meios comunicativos.

Chegamos num momento em que a indústria percebe claramente o poder das minorias, e não de uma forma com poder aquisitivo, mas de transformar nisso num produto que gere lucro, afinal, uma série ou filme, seja ela com minorias ou não, é produto da indústria midiática. O grande questionamento não está nisso, mas de como a real representatividade está difundida nesses produtos. A crítica consiste no questionamento quanto a autenticidade da construção da representatividade para a fatia que se vê de fato representada, em detrimento à lógica de produto vazio para gerar lucro pertencente a uma minoria dominante dos meios de comunicação.

 

A ideia de que as minorias apareçam, que a forma de expressão seja escrita, dirigida e criada por pessoas desses meios, mas nada adianta ter algo protagonizado por nós, sem a construção da representação autêntica. Em suma, essa configuração atualmente apresentada pode ser considerada como uma forma de exclusão, da pior forma possível, quando se é assumido o papel mercadológico da luta, desconsiderando o valor humano real – coisa que muito se associa à uma nova condição de “escravidão moderna”.

Fonte para o texto: Quadro em Branco

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Ronan Carvalho

Designer, Gamer, Membro da Tropa dos Lanternas Amarelos e morador de Hell's Kitchen

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