Retratos de um épico – O Poderoso Chefão

Por Edu Queiroz | Revisão Danielle Sodré

 

Retratos de um épico

Obra-prima. Esse é certamente o termo que busco atribuir a determinadas obras cinematográficas que, com êxito, resistem aos desafios traçados pelas impiedosas barreiras do tempo e continuam a atrair a atenção de novos admiradores. No caso de O Poderoso Chefão, que este ano celebra o 45º aniversário de seu lançamento, não haveria denominação mais justa.

Um longa-metragem que através de diálogos vibrantes, narrativa envolvente e interpretações genuinamente cativantes, pôde, acima de tudo, firmar as bases de atuação de nomes como Steven Spielberg, Brian De Palma, George Lucas, Martin Scorsese e, claro, o responsável por conduzir o clássico que aqui enalteço: o próprio Francis Ford Coppola. Em suma, jovens e talentosos artistas que despontavam longe dos tradicionais holofotes, mas que viriam alterar de vez a trajetória da indústria Hollywoodiana e sua fórmula convencional de se fazer cinema.

Entretanto, não só de rosas se fez o caminho da épica saga dos Corleone, a proeminente família ítalo-americana. O filme conviveu com contratempos desde o início de sua produção, e os motivos foram mais do que justificáveis. Afinal, trata-se de uma obra que foi lapidada ao encalço de acontecimentos históricos, regados a doses cavalares de violência.

Turbulência Moderna

A ebulição de conflitos sociais se propagava no mundo. Na Itália, o caos era preponderante em meio à histórica onda de terror que assolara o país no final dos anos 60, os chamados Anos de Chumbo.  Nos Estados Unidos, a luta contra a segregação racial, os apelos para o fim da Guerra do Vietnã e a intensificação dos movimentos a favor do feminismo denotam o contexto da época. A difícil realidade repercutiu na indústria cinematográfica norte-americana, que apresentava um quadro em derrocada nas bilheterias devido à negligência de uma parcela significativa dos produtores da época, que tardavam em admitir que os conteúdos abordados em seus filmes não refletiam o atual panorama, em que jovens clamavam por paz e justiça.

Em polvorosa, os executivos da Paramount Pictures pressentiam que era preciso arriscar, nem que isso viesse lhes custar mais um fracasso de audiência. Assim, investiram suas atenções em uma ideia ambiciosa: Apostar no potencial de um livro, ainda em fase de desenvolvimento, como concepção propositiva para uma futura produção. Os riscos eram inúmeros, tanto para o estúdio quanto para o escritor Mario Puzo, que também depositava na mesa a sua credibilidade como autor.

Decerto, os dados lançados estavam a favor do acordo. Lançado em 1969, o livro homônimo que fora escrito com tempo limitado, se tornara um sucesso estrondoso. O desenvolvimento da história para o cinema era, então, uma questão de tempo e de uma nova rodada de escolhas, aonde seria crucial que a adaptação cinematográfica estabelecesse uma conexão com os anseios do grande público.

Dito isso, não se tem como dissociar do fato de que apenas três anos separam o início das filmagens, em março de 1971, da estarrecedora sequência de assassinatos de símbolos políticos da geração: o líder do Movimento dos Direitos Civis dos Cidadãos Afro-estadunidenses, o pastor Martin Luther King Jr. (Abril de 1968) e o provável vencedor da eleição presidencial que se definiria no mesmo ano, o senador Robert F. Kennedy (Junho de 1968). Vale destacar que, cinco anos antes o próprio candidato Democrata havia se despedido do irmão mais velho e 35º presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy (Novembro de 1963), de uma maneira igualmente traumática para a nação, levantando sérios indícios de conspiração.

Conduzidas com amplo debate, as escolhas da direção do filme também passaram longe de ser uma unanimidade. Parte dos responsáveis da Paramount contestava o método de criação e via como premeditada a escalação de Marlon Brando e Al Pacino, nomes que sequer figuravam na lista de sugestões do estúdio. No entanto, mesmo com o ambiente desfavorável, Coppola foi firme em sua decisão de bancá-los na desafiadora tarefa de dar vida ao imponente Don Corleone e seu amado filho, Michael. Assim, aclamado pela crítica e público, com recordes de bilheteria e, claro, muitos prêmios, O Poderoso Chefão comoveu o mundo.

Um olhar sobre La Famiglia

A identificação foi imediata à primeira vez que assisti na versão ainda dublada pelo extinto estúdio Herbert Richards. As cenas de ação e as reviravoltas na trama me impactaram. No entanto, apenas alguns anos mais tarde eu pude desvendar, sob a ótica da Psicologia, que não se pode referenciar O Poderoso Chefão como clássico de um gênero específico. A obra abarca, em sua essência, mais do que o jogo de poder e as subsequentes maneiras de se praticar a corrupção em uma sociedade fragilizada. O processo de formação da conduta das personagens é revelado com a análise da estrutura familiar que imperava na época.

O enredo se inicia no verão de 1945, em Long Island. O preconceito étnico e o machismo predominavam na era do modelo de família tradicional, onde os papeis do homem e da mulher eram restritos e rigidamente fixados nos princípios do Paternalismo e sua linha sucessória.

Para o homem, cabia à função de ser o provedor, aquele que exercia o ofício de delegar, inclusive, quais seriam os serviços da casa que esposa e filho assumiriam. A sua responsabilidade estava simbolicamente associada à remuneração alcançada através dos esforços no trabalho. A dedicação à família se fundamentava no contexto externo, não no ambiente do lar.

Coibida, a mulher era orientada a agir com subordinação, sendo frequentemente impedida de expor opiniões, mesmo quando encarregada a se dedicar das tarefas domésticas na instituição familiar, promovendo a assistência necessária para a manutenção do núcleo, abstraindo do próprio estigma social vivido.

Não há dúvidas quanto à relevância de se acomodar numa poltrona e acessar diferentes expressões culturais através de uma convencional tela de projeção. A experiência possibilita a criação de visões de mundo que repercutem tanto no senso crítico quanto na prática social do indivíduo. É a aproximação das fronteiras do universo real e o audiovisual que proporciona o potencial educativo ilimitado do cinema. E é o que torna O Poderoso Chefão uma obra fílmica atemporal.

Assista ao vídeo apresentado e produzido pelo Edu Queiroz, direto de Sydney – Austrália.

 

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Edu Queiroz
Sobre Edu Queiroz 3 Artigos
Psicólogo, leitor inquieto, fã do som de vitrola e eterno simpatizante das expressões de Haddock.

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