RPG, um jogo de experiências imaginativas

Jogar é uma atividade que está correlacionada à humanidade desde os primórdios da nossa espécie, e é um aspecto importante na construção de indivíduos tanto como estrutura quanto linguagem. Assim como compartilhar histórias também é algo que vêm desde o período em que os povos se reuniam ao redor de uma fogueira para compartilhar suas narrativas de forma imaginativa sobre a construção do mundo à sua volta, dando assim corpo aos mitos e lendas. Hoje a contação de história continua, com um pouco menos mitológicos e raras vezes envolve uma fogueira, geralmente envolve aumentar situações do cotidiano, uma mesa de bar, amigos e bebidas.

 

De todo modo, não é novidade que o RPG como conhecemos surgiu durante os anos 1970, extraído das costelas dos jogos de tabuleiro pelas mãos de Gary Gygax e Dave Arneson (criadores de Dungeons & Dragons) e, consiste em um jogo de narrativa no qual os participantes usando regras de um livro de regras, o chamado sistema (D&D, GURPS, FATE, DAEMON, etc.), conduzindo através de tramas e aventuras que podemos chamar de campanhas, ou histórias.

 

 Os jogos de RPG em muito se assemelham com diversos jogos de interação social. Porém ainda sim possui sua própria identidade. No caso, os jogadores interpretam, um personagem (que podem ser guerreiros, magos, bárbaros, feiticeiros, investigadores, vampiros, lobisomens, exploradores espaciais e tudo o mais que possa ser imaginado), participando de uma forma de improvisação teatral, se expressando como o personagem se expressaria e descrevendo como agiria diante do contexto que é apresentado pelo narrador (ou mestre). 

 

Boa parte é um processo de criação livre, os jogadores podem fazer com que os personagens digam e façam o que quiserem desde que os diálogos e as ações sejam coerentes com a personalidade e as habilidades propostas em suas fichas – uma cartilha onde constam todas as informações importantes da personagem de acordo com o livro de regras, ou sistemas. Em caso da atuação do personagem  interferir  de forma decisiva na trama proposta pelo narrador – que também atua como árbitro – o efeito das suas ações se dão através da rolagem de dados e do sistema proposto. 

 

Uma campanha de RPG transporta narradores e jogadores à vivência de uma trama fantástica da qual somos atores e roteiristas em conjunto, que caminham em direção ao surpreendente. Usando o teatro como idéia, elimina-se a divisória entre platéia expectadora e o performer, permitindo que cada um presente se expresse e sinta os efeitos de suas ações dentro da construção da narrativa, o que trás um alto grau de imersão durante uma sessão de jogo no qual o objetivo final seria ter uma história significativamente boa todos os envolvidos e assim todos saem ganhando. 

 

Em minha experiência de aproximadamente vinte anos de contato com o RPG, como jogador e narrador acredito que as sessões de jogo podem ser um encontros transformadores da realidade, o armário para Nárnia, é comum durante o jogo nos despirmos de nossas identidades reais para que assumamos outras identidades, também nossas e de possibilidades fantásticas, para atuarmos em um mundo paralelo, a Terra Média que nos habita, que sempre esteve ali, ao nosso redor, desde o tempo em que nossos ancestrais sentavam ao redor de fogueiras, buscando um momento para se expressar, para ao fim da sessão, nos despirmos novamente, nos despedir da Terra Média, voltar pelo armário de entrada para imaginação, enriquecidos e transformados pela experiência imaginativa, ansiosos para retornar!

 

Matheus Gansohr

Psicólogo, pós graduado em psicoterapia junguiano

entusiasta da criatividade e imaginação assim como do 

rpg de mesa, jogador e mestre a uns 20 anos!