Tungstênio é o retrato das tensões sociais

A cada dia que passa, surge uma adaptação nas salas de cinema. Seja de livro, game ou quadrinho, parece que a as adaptações estarão permeando sempre as telas da sétima arte. Eis que surge mais uma adaptação de uma história em quadrinhos, que passaria despercebida se não fosse por dois fatores: é uma HQ nacional e a direção é do Heitor Dhalia.

Tungstênio é baseado na HQ de Marcelo Quintanilha, que também assina como um dos roteirista do longa. O filme se passa na periferia de Salvador, e parte de uma situação, inicialmente, irrelevante – dois pescadores utilizando bombas para pesca predatória nos mares da capital baiana – para mostrar o cotidiano de um povo brasileiro.

A narrativa do filme é guiada por quatro personagens: o policial Richard (Fabrício Boliveira); sua mulher Keira (Samira Carvalho); o ex-militar Ney (José Dumont); e o jovem Cajú (Wesley Guimarães). De forma não linear, Dhalia destrincha as particularidades de cada um, dando camadas e personalidades a cada um deles – Richard é um policial correto, mas abusa da esposa em casa; Ney é um ex-militar que parou no saudoso tempo do militarismo, mas se revela um sujeito solitário e, como muitas pessoas, carente de afeto.

Dessa forma, o diretor traça um retrato das tensões sociais que permeiam a vida de pessoas em todo o país, evitando explicações simplórias – um policial negro pode exercer um poder opressivo sobre outro através do racismo. É esse caráter dúbio que dá aos personagens o tom mais crível e real. Outro acerto do filme é sua fotografia – destaque para a forma de utilização das câmeras. Alguns trechos do filme são idênticos aos quadros da HQ, dando uma fisicalidade e um ritmo que vão te deixar sem respirar em certos momentos.

Uma das poucas críticas ao filme é o excesso do voice over, apresentado por Milhem Cortaz. Há momentos que o narrador descreve o pensamento do personagem, dando até um tom cômico, mas existem outros em que ele descreve claramente o que está em tela. É a velha máxima: não me diga, me mostre.

Apesar de um deslize mínimo, Tungstênio já é um frescor para o cinema nacional. Além de uma boa adaptação de, nos tira do clichê de comédia pastelão e mostra que, com a obra e diretor certo, o cinema nacional pode permear por tal ramo. As editoras DC e Marvel estarão sempre nos holofotes, mas há uma luz, lá longe, que mostra que o quadrinho nacional tem seu lugar para brilhar.

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