Victoria e Abdul – O Confidente da Rainha

Comunidade

Em 1876 a rainha Victoria recebe o título de Imperatriz da Índia, fato que faz parte da estratégia de fortalecimento do poder da Inglaterra sobre o território onde é encerrada a administração local pela Companhia Britânica das Índias Orientais, passando para a administração direta do governo britânico. Essa mudança ocorre após o levante conhecido como Revolta do Cipaios (1856-1857). Cipaios foram os soldados indianos recrutados pela Companhia Britânica, responsáveis pela proteção das atividades da companhia; já havia um clima de descontentamento entre estes por conta de todo processo de colonização, que buscava ocidentalizar a Índia (atacando sua cultura e tradições). Costumam afirmar que o estopim da revolta ocorreu por motivos religiosos (E esse é um detalhe dentro de um conjunto de fatores políticos, econômicos e culturais). O argumento do uso de gordura animal no revestimento das balas do fuzil foi o estopim para a revolta – utilizado no filme-, o que não passa um de uma simplificação de todo o conflito e os efeitos deletérios da colonização britânica na Índia.

Essa breve introdução serve para dar uma ideia do contexto histórico que o diretor Stephen Frears usa, a fim de nos contar a história de um encontro improvável. Nos eventos narrados pelo diretor, a rainha Victoria (Judith Dench) encontra-se em idade avançada, cansada e entediada de sua rotina real. Com a chegada do dia do Jubileu de Ouro, ela conhece Abdul Karim (Ali Fazal) e, a partir deste encontro e motivada pela curiosidade, a rainha se aproxima de Abdul e decide torna-lo seu secretário, causando um descontentamento entre os seus subordinados.

A proposta, apesar de interessante – já que se propõe a narrar eventos reais – fica confusa por conta da mistura de tons: ora cômicos, ora levemente dramáticos. Tudo isso torna o filme bastante insosso e, em alguma medida, preguiçoso. Apesar de não recorrer ao exotismo (muito comum no cinema Hollywoodiano quando se trata de qualquer coisa ligada a Índia), o roteiro fraqueja em mostrar o choque cultural que a presença de um indiano na corte deveria causar. Fica evidente que ele não é bem-vindo entre os membros da realeza, explícito em alguns gestos e insinuações de cunho racista. Contudo, a impressão que passa é que se buscou amenizar toda perseguição e tentativas de sabotagem a Abdul, através de interpretações que beiram o cômico.

Toda a relação entre Abdul e Victoria é comprimida na narrativa (foram 15 anos de convivência), de maneira bastante superficial; são poucos os momentos onde se é capturado para algo mais sério: tudo parece girar em torno de como deveria ser monótona a vida de uma senhora de mais de 80 anos, com a tarefa enfadonha de cumprir agendas e protocolos que não faziam mais sentido, até encontrar um indiano que a ajuda a dar alguma graça aos poucos anos de vida que lhe restavam (além de, claro, tomar conhecimento da cultura de um país tratado como colônia e sem nunca tê-lo visitado).

Mohammed Abdul Karim, o “Munshi”, ao lado da Rainha Victoria.

Exceto pela cena de Mohammed, amigo de Abdul, num diálogo com o filho da rainha, o príncipe de Gales, Bertie (Eddie Izzard) – onde Mohammed expressa toda a raiva e insatisfação pelos anos de colonização e todos malefícios da presença inglesa em seu país – não há nenhuma outra cena que gere algum impacto.

A falta desse senso mais grave faz pensar que se optou em romantizar este encontro entre Abdul e Victoria, deixando de lado a oportunidade de contar uma história com mais profundidade e até mesmo intensidade, principalmente por colocar em foco duas figuras distintas que representam culturas opostas, em condições completamente desiguais: colono e colonizado (observar os aspectos abordados na introdução). É importante destacar isso, pois mesmo pincelando a perseguição que Abdul sofre, parece que tudo foi muito pontual e ele mesmo encarava isso de maneira bastante altiva, passando uma impressão que ele deveria lidar muito bem com tudo isso. Faltou, também, explorar aspectos mais contraditórios da personalidade de Abdul, exceto por algumas insinuações de que ele estaria se aproveitando da condição em que se encontrava para benefícios próprios.

No geral, em termos técnicos, tudo no filme é muito “ok”. Figurino, cenários e a direção de fotografia (alguns planos são tão óbvios…) cumprem suas funções sem buscar ir além do necessário.

Por fim, há que se afirmar que Judith Dench sustenta o longa: a atuação dela é bastante crível, mas desperdiçada numa produção muito abaixo do seu talento. Uma pena.

 

Nota: 1/5